My ideal setup

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Para atender às promessas que fiz publicamente, começo a organizar e delinear aos poucos minhas idéias para um sistema de produtividade pessoal [1]. São idéias que comecei a registrar por volta de 2009 e que, apesar de cobrirem diferentes aspectos da nossa produção intelectual, até hoje não tinha pensado em colocar sob um arcabouço comum. Não posso alegar anterioridade de concepção, mas é razoável dizer que em parte me surgiram de forma independente ou ao menos que certas combinações podem ser originais. Em alguns casos, é até mesmo possível que a aplicação de certa ferramenta ao contexto da produtividade pessoal não tinha sido pensada até então. De todo modo, acredito que essas questões de originalidade sejam irrelevantes neste ponto, dados os objetivos desta série de posts.

Um aspecto importante do sistema de produtividade pessoal que pretendo construir nesta sequência é o objetivo explícito de cobrir planejamentos de longo, médio e curto prazos, a definição e a escolha de alternativas de ação ou estratégias para satisfazer os objetivos estabelecidos, maneiras mais concretas de acompanhar e avaliar seu desempenho ao longo do tempo, diagnosticar falhas de execução, considerar ajustes e revisões ocasionais ou periódicas nas estratégias, nos planos ou mesmo nos valores pessoais.

Este objetivo embute um ideal de formalização e controle que de fato é difícil de aplicar em organizações, empresas grandes ou pequenas. Não cheguei a avaliar todos os “módulos” que proporei e mesmo para os que tentei não poderia concluir pelo sucesso ou fracasso. Na maior parte dos casos, a aplicação não foi sistemática o suficiente, sendo movida mais pela excitação com a idéia do que de um design para o experimento. Eu não sou um self-experimenter a Seth Roberts (RIP), mas apenas alguém que “perde as estribeiras diante de uma idéia” (parafraseando alguém).

Para esta sequência, pretendo cobrir a maior parte dos conceitos importantes para fundamentar uma compreensão mais ampla do sistema, então é grande a possibilidade de que isso descambe para uma série sobre “decision analysis” e “tomada de decisão multicritério” em particular. Vejamos quem consegue manter o interesse depois de dois ou três posts.

Mas decidi começar pelo fim e para o post inicial apenas listarei algumas ferramentas de produtividade pessoal na linha do que já é mais conhecido, como Pomodoro. Ou seja, partindo da suposição de que você já alimentou o sistema com todas as informações e preferências necessárias para gerar os planos, linhas de ação e medições de desempenho. Seu problema agora é tentar garantir que você usará o tempo disponível para a execução das atividades previstas. Isso significa que em geral essas são apenas ou principalmente ferramentas para limitar a procrastinação.

O formato de apresentação será mesmo o de uma listagem descompromissada. O objetivo já terá sido satisfeito se a maioria dos leitores conseguir encontrar ao menos uma idéia ou item que ainda não conhecia, se pensar em aplicar ou se considerar uma combinação específica de ferramentas. Por ora, as “descrições” não passarão de alguns comentários gerais e soltos, além de um amontoado de links. O objetivo é apenas motivar a sequência prevista e evitar assustar o leitor interessado com um texto sobre “planejamento estratégico” logo de início. Quando voltarmos a este ponto final, da implementação das ferramentas de mais baixo nível, pretendo entrar em detalhes sobre algumas delas.

1) Beeminder: “in case you’re into commitment contracts“, “stickk for data nerds”. Acredito que já seja bastante conhecido. Você vai precisar de um bom tempo pra entender e se habituar com alguns detalhes dos gráficos, controles e jargão, mas na minha visão seria parte fundamental do sistema para a maioria das pessoas. Também pode envolver um bom tempo de experimentação com a definição de objetivos, metas e formas de mensuração. É certo que ninguém usará o Beeminder para acompanhar todos ou mesmo a maioria dos objetivos que você definiu pelo sistema. Aprender quais objetivos você pode acompanhar pelo Beeminder e quais são melhor controlados por outros meios é outra parte importante do processo de aprendizado. Na verdade, em alguns casos será possível até mesmo ligar um objetivo acompanhado por outro método a um “Beeminder goal” e aproveitar as vantagens das duas abordagens. Algo que aprendi foi a importância da automação da entrada de dados no Beeminder, já que me falta disciplina para fazer isso manualmente todos os dias. De fato, o Beeminder já está ligado a vários outros serviços e dispositivos conectados por wifi, como Fitbit, RescueTime, Gmail, Github, Duolingo e Trello (e crescendo)[2].

2) TagTime: dos mesmos criadores do Beeminder, é um aplicativozinho para Android usado para acompanhar suas atividades, por meio de uma amostragem aleatória ao longo do dia. Um sistema de time tracking clássico em geral depende da sua memória para registrar manualmente uma mudança de atividade ou de um sistema que infira o que você está fazendo a partir de screenshots[3]. Aqui você associa suas atividades a um conjunto de tags simples, entre as quais você deve escolher cada vez que o aplicativo solicita a entrada de dados[4]. Com uma amostra suficientemente grande as estimativas do tempo destinado a cada atividade tendem a ficar próximas da realidade. Como esperado, já existe uma ligação do TagTime com o Beeminder.

A idéia de amostrar as atividades ao longo do dia pode ser estendida para todo um conjunto de indicadores, quantitativos e qualitativos, incluindo humor, saúde geral (peso, tempo de sono, etc.), ou mesmo medidas associadas ao seu desempenho cognitivo – imagine um aplicativo que com certa frequência lhe peça para resolver um pequeno teste mental. Embora não associados diretamente à redução da procrastinação, com sorte a análise das informações geradas será útil nas futuras decisões sobre seleção de atividades e alocação de tempo [5].

3) Uma alternativa para time tracking: Supondo que você já tem uma boa idéia das atividades que deseja executar hoje, mas tem dificuldades para decidir o que fazer agora, por quanto tempo e o que fazer depois. Nesse cenário uma boa opção pode ser delegar essa decisão ao sistema, eliminando essa carga cognitiva desnecessária.

Por algum tempo usei uma script para acompanhar o tempo que eu dedicava a cada tarefa em particular e que, após cada entrada, sugeria a próxima tarefa e um tempo de execução, com base em um peso relacionado às importâncias relativas de cada uma. Estimando cerca de 200 horas úteis por mês e distribuindo esse tempo entre as tarefas selecionadas, o tempo alocado era usado como peso. A script verificava se o “tempo gasto com a tarefa A nesta semana” estava próximo do tempo relativo que ela deveria receber (dado o tempo total trabalhado até então) e reordenava as tarefas de acordo com seus déficits.

No fim, o único objetivo de controle era o de garantir o tempo total de execução das tarefas – que por sinal pode ser acompanhado pelo TagTime! (Mais adiante na sequência ficará claro que isso se alinha lindamente aos módulos de planejamento do sistema, já que um dos objetivos desses é fazer a alocação do tempo disponível entre as tarefas consideradas.)

4) Email: em geral é visto – e com boas razões – como um grande sorvedouro de tempo útil, a ponto de advogarem sua eliminação ou ao menos o outsourcing do seu processamento[6]. Mas é possível usar o email de uma maneira inteligente e que promova a satisfação das suas metas. Há diversos setups na web e parte delas recomenda o uso de diferentes contas para diferentes contextos e o uso de mensagens de email como reminders.

Mas vou sugerir algo um pouco mais extremo, na esperança de parecer aplicável a mais alguém: usar o email (ou uma ou algumas contas específicas) como “RSS aggregator“. Sugiro o Blogtrottr e o RSSForward. Isso pode parecer uma boa idéia pra quem acha que o total distanciamento da web em período produtivo não é razoável, seja porque algumas fontes são úteis para seu trabalho ou porque valoriza um efeito motivacional, seja diretamente ou pelo impacto da “descoberta” de novos assuntos. Aqui será possível ser bem específico na seleção de feeds (o processo de inclusão é bem mais trabalhoso), que poderão ser direcionados para contas de email de contextos diferentes, que serão acompanhadas de acordo com o contexto da atividade em execução. Isso é algo que fiz ao longo dos últimos 4 anos, com satisfação.

5) O IFTTT, que a maioria já deve conhecer, pode ser usado para conectar diferentes serviços e dispositivos, de acordo com uma configuração que é aberta ao usuário (receita). Por exemplo, há algum tempo “conectei” o Beeminder com a minha conta no Facebook, de modo a publicar no último todas as vezes em que deixei de satisfazer uma meta no primeiro.

6) Como o conceito de lifelogging parece estar passando por um second coming, vou tirar do baú algo bem controverso que tentei circa 2009 e oferecer como sugestão. Postar em uma conta do Twitter todas as URLs dos sites visitados – ao menos durante períodos reservados para atividades produtivas. Essa é uma idéia bastante obscura e provavelmente muito estúpida, então é possível que eu possa alegar anterioridade nessa (e exclusividade, no caso). Na época, usei uma script disponível para Greasemonkey (Firefox)[7].

[1] Na ocasião chamei de “sistema de otimização pessoal“, o que causou certa confusão – aqui, a interpretação mais comum parece ser a de melhoria de facetas mais gerais do desempenho humano, como de suas funções cognitivas. Por outro lado, é certo que esse tipo de “otimização” pode ser inserido como objetivo e gerar atividades importantes em um sistema de produtividade, mas por ora prefiro deixar clara esta distinção.

[2] Além de ter uma API aberta.

[3] Problemático para atividades não realizadas no desktop, por exemplo (incluindo tarefas cotidianas que costumam não entrar no conjunto produtivo).

[4] A interrupção é pouco invasiva (se é que é possível definir isso) e bem diferente de uma notificação de email, por exemplo, já que permanece no contexto da atividade atual – e eventualmente até o reforça.

[5] Supõe-se que o próprio aplicativo possua algumas funções simples de análise estatística.

[6] O Gmail Inbox Zero é um dos objetivos pré-disponíveis no Beeminder.

[7] Minha conta agora abandonada.

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Ídolos

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Há pessoas com certas experiências de vida que refletem características que também gostaríamos de possuir, em especial quando consideramos decisões passadas com as quais não estamos completamente satisfeitos. Assim, no meu caso, não é que procure ativamente desenvolver características similares, já que essas se aplicariam melhor a situações passadas. Em geral, as referências estão voltadas para comportamentos e decisões profundamente atípicas, que demonstram formas criativas de expandir o espaço de soluções aplicáveis aos problemas em questão. Por outro lado, não é correto dizer que existe apenas uma admiração distante por uma pessoa com capacidades a que nunca terei acesso. A web tornou o estabelecimento desse tipo de “relação” muito mais fácil. Ao menos no meu caso, na maioria das vezes busquei inspiração em pessoas relativamente simples, pequenas celebridades dentro de grupos bem específicos, cuja trajetória nos foi permitida acompanhar.

Na medida que o fato de ter acompanhado essas experiências e as interpretado de uma forma particular, é inevitável que eventualmente sejamos influenciados por elas em nossas próprias tomadas de decisão. É fácil e curioso nos pegarmos na pele de um desses ídolos, tentando imaginar o que pensariam dessa situação, que arranjos e alternativas não convencionais criariam e quais delas nos são de fato acessíveis. Não deixa de ser frustrante, claro, descobrir que não temos a mesma criatividade ou a coragem para considerar seriamente uma certa possibilidade. Mas ao menos por ora, acredito que esse exercício (involuntário) tenha mais benefícios do que malefícios.

Não vou fazer uma lista completa das “pessoas inspiradoras” que descobri ao longo dos últimos anos, apenas citar duas ou três, para mostrar um segundo fator associado ao modo como as “seleciono”: o fato de não ser necessário que estas pertençam a algum meio intelectual, nem que tenham opiniões e preferências próximas às minhas. De fato, é possível, em alguns casos, que professem posicionamentos que, ao menos na superfície, pareçam (ou de fato sejam) diametralmente opostos aos meus. O que podem trazer, nesse caso, são perspectivas que posso agregar ao meu modo de atualizar meus “modelos do mundo,” à luz dos quais tento interpretar as situações e eventos à minha volta.

Dois exemplos desse caso são Ran Prieur e Meitar Moscovitz, que poderia colocar em uma mesma categoria.

Outro exemplo possivelmente inesperado é o Bob Burnquist (também uma exceção ao critério de “pequenas celebridades”).

Dadas serem trajetórias públicas cujo desenrolar acompanho às vezes já há 8, 10 anos, também é natural que o nível de influência de cada pessoa inspiradora flutue ao longo do tempo e mesmo que alguma seja temporariamente esquecida, para retornar à atenção de forma quase aleatória meses ou anos depois.

 

The Next 100 Years: A Forecast for the 21st Century (George Friedman).

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(Finalmente publico notas pessoais e “resenha” para esse livro já lido há algum tempo.)

A expectativa do autor com o livro é fornecer princípios gerais para fazer previsões de longo prazo (afinal, aqui estamos falando em um horizonte de até 100 anos!) – isto é, princípios válidos não apenas para questões (geo)políticas. Embora sempre apresentados no contexto daquelas questões, tais princípios deveriam ser, a princípio, transferíveis para outros contextos em que uma previsão de longo prazo é também relevante. Em nenhum momento, porém, o autor deixa claro de que modo tal transferência se daria ou porque os princípios que ele levanta são, de fato, gerais o suficiente.

A primeira grande observação de Friedman, um princípio que, a meu ver, não levanta ou não deveria levantar tanta ou alguma controvérsia, é a de que fatores geopolíticos são no mínimo tão e provavelmente mais importantes do que fatores econômicos para o desenrolar dos eventos de importância histórica. Mais do que isso, o autor dá a entender que os últimos são, no mais das vezes, subjugados pelos primeiros, sendo as guerras seu principal elemento definidor. “Wars, when your country isn’t destroyed, stimulate economic growth”. Aqui devo dizer que, embora sempre tenha admirado a Stratfor – e Friedman em particular – por essa visão não idealizada do mundo, pela objetividade de suas análises desapaixonadas, não deixa de causar uma sensação um pouco desconfortável ver um quase “elogio” às guerras, sensação que não consigo aplacar mesmo reconhecendo a maior parte do papel fundamental que o autor confere, às vezes apenas nas entrelinhas, às vezes mais diretamente, a elas. Infelizmente, há algum aspecto moral aqui que me escapa mesmo quando tanto me esforcei para isolar todos eles antes de começar a leitura. De fato, uma guerra pode estimular o crescimento econômico, desde que seu país já seja forte o suficiente e que ela aconteça longe de casa.

Além disso, também me foi difícil concordar (do alto do meu talvez insuficiente conhecimento da história, devo reconhecer) com a afirmação de que a estabilidade e a integração econômica que existia no início do século XX é comparável à que existe agora, me parecendo a última mais intensa e, principalmente, mais “estrutural.” Por exemplo, não me parece mais tão fácil surgir um líder populista e/ou fascista forte em um país de grande potencial humano e econômico (e, portanto, militar), sem atrair uma atenção até mesmo desproporcional do mundo, incluindo retaliações preventivas. (E aqui vale compartilhar uma visão um pouco mais positiva do intervencionismo – ou “imperialismo”, se alguém preferir -, que ainda poderia ser sistemicamente vantajosa em relação à alternativa de não intervenção.) Mas esse tipo de objeção deve ser lugar comum. No entanto, é possível que ambos estejamos errados, os que fazem esse tipo de objeção por achar que a dinâmica dominante por 10, 15 séculos, é agora decisivamente menos importante, mas também ele, por dar um peso menor do que o justo a esses novos fatores.

Friedman continua achando – e não apenas neste livro, porque ele vem falando isso há anos em qualquer entrevista que concede – que a chave do poderio militar americano (que por sua vez é a chave do poderio econômico) é a marinha, sendo a presença dominante nos dois principais oceanos o principal fator a determinar que os Estados Unidos continuarão sendo o principal ator geopolítico global nesse horizonte de 100 anos, apesar do surgimento de novas e até certo ponto “inesperadas” potências mundiais. Obviamente, inesperadas não para Friedman, que seria um dos poucos capazes de enxergar uma lógica com padrões bastante claros e com coragem para aplicá-la em um horizonte de tempo tão longo. (E aqui eu estou sendo apenas parcialmente irônico.) Nesse ponto, o autor faz outra simplificação um tanto temerária, que é a de reduzir o ódio ao “império americano” unicamente ao medo provocado por seu poderio militar ostensivo. A “Guerra ao Terror” teria como objetivo principal impedir a realização do (já improvável) sonho de formação de um novo e unificado império islâmico e, no olhar de Friedman, dará o tom da primeira metade do século XXI, com grupos islâmicos sempre procurando envolver os Estados Unidos em uma grande guerra.

De fato, outra crítica possível ao livro é por ter conteúdo e forma excessivamente americanocêntricas, que, embora natural e compreensível, é às vezes colocada de uma forma que beira o mau gosto. Além disso, Friedman faz diversas simplificações grosseiras para construir uma narrativa com uma linha mais dramática, muito diferente, por exemplo, do teor e do tom dos relatórios com análises oficiais da Stratfor.

Friedman prevê uma nova “guerra fria” com a Rússia (“os russos não podem evitar uma tentativa de recuperar poder”), que daria o tom dos primeiros 20 anos deste século e terminaria mal, mais uma vez, para os russos – uma das previsões menos ousadas do livro, dados os movimentos que já vemos há muitos anos. Friedman também descarta a China como potência mundial, citando seu isolamento físico, baixo poderio naval e instabilidade social, mas ousa ao prever o surgimento de um novo ciclo “maoísta” ainda nesta segunda década, movimento que, ele acha, os Estados Unidos devem tentar frustrar, para confrontar os russos.

As 3 potências que Friedman antecipa o surgimento neste século seriam:

1) Japão, que também “não teria como evitar“, dados o poder econômico e a tradição militarista – e os problemas populacionais e a necessidade de importar trabalhadores estrangeiros, bastante mencionado recentemente, seria uma das vias para esse processo.

2) Turquia, que já tem grande influência em uma região instável e já é forte economica e militarmente.

3) Polônia, dado o declínio que ele prevê para a Alemanha, que perderia dinamismo econômico via problemas populacionais. Seria a Polônia que controlaria o ímpeto russo já nesta década, com auxílio dos Estados Unidos.

Avançando no horizonte de tempo, Friedman prevê uma nova guerra de proporções mundiais para a metade do século, que será alimentada pela interação (dinâmica) entre os fatores construídos e que se tornaram importantes nas primeiras décadas do século XXI. O autor prevê como maior “benefício” do conflito avanços em tecnologias para geração de energia solar: captadores posicionados no espaço com capacidade para “transmitir” de volta à Terra via microondas. Obviamente, deixemos de lado os detalhes da previsão e fiquemos apenas com a dinâmica: surgimento de novas potências e novos fatores com relevância geopolítica conduzindo a uma guerra mundial que tem como sub-produto o desenvolvimento de uma ou um pequeno conjunto de tecnologias que promoverão grande crescimento econômico no pós-guerra. Mas uma previsão importante que o autor faz é o fim do processo de explosão populacional: os países hoje industrializados com perdas populacionais significativas já na metade do século, mesmo os países hoje menos desenvolvidos terão populações estabilizadas até o final do século XXI. Como principal fator subjacente ao século, isso teria consequências sobre todo o sistema produtivo, que passaria a ver um nível real de automação e pesquisas genéticas com o objetivo de aumentar a produtividade média do ser humano. Países hoje já industrializados até o final da primeira metade do século pagariam potenciais imigrantes, que seriam virtualmente alvo de grande concorrência. Um movimento que Friedman cita em particular seria o de mexicanos (mas agora com um país bastante desenvolvido) para os Estados Unidos, que seria um dos principais fatores deflagradores de um longo conflito militar na região, começando por volta de 2080.

O próprio autor deixa claro que não espera ser levado a sério nos detalhes das previsões que faz, que as escolhas específicas foram feitas apenas para ilustrar seu método. No entanto, ainda acho que ele não enfatizou isso o suficiente e que para isso ele poderia ter tentado dar estimativas numéricas para a concretização de cada cenário sugerido, o que seria uma maneira mais eficiente de demonstrar o argumento. Por outro lado, devo reconhecer, mais uma vez, que os detalhes escolhidos – e especialmente as simplificações usadas para gerar uma interpretação – buscaram uma narrativa que fosse mais atraente para um grupo específico de leitores já “convertidos” àquelas interpretações. Isto é, Friedman parece não ter feito o menor esforço para atender, chamar a atenção de um público menos comum a ele, mais rigoroso, cético e que ainda prefere manter um certo distanciamento moral dessa instituição humana que é a guerra.

De um ponto de vista positivo, Friedman tentou dar uma visão mais direta de seu método para fazer previsões de longo prazo, que ele chama simplesmente de geopolítica, que, assim como a economia, parte do pressuposto de que os agentes são racionais, isto é, de que eles conhecem ao menos seus próprios interesses de curto prazo. A partir dessa premissa, os atos de governança refletiriam, na maior parte, a simples execução de um próximo passo lógico e necessário. De fato, o conceito de inevitabilidade está presente em todas as narrativas do livro. Erros cometidos por líderes políticos, quando examinados de perto, raramente se revelariam atos estúpidos, mas sim ações forçadas pelas circunstâncias. Nesse contexto, a geopolítica versaria sobre amplas forças impessoais que restringiriam as ações de seres humanos e de nações como um todo, praticamente as obrigando a agir de formas específicas, dentro de um menu bastante limitado de opções. Naturalmente, outro conceito refletido ao longo de todo livro é o de consequências não intencionais.

Para Friedman, a forma mais prática de imaginar o futuro, em especial no longo prazo e em geopolítica, é questionar as expectativas. De fato, ele tem uma visão de “cisne negro” da história, que seria melhor representada por um modelo de equilíbrio pontuado, com boa parte dos eventos importantes surgindo como produto de forças imprevisíveis, de choques exógenos violentos, de descontinuidades.

 

Why I hate gifts

[Pequena descrição que acabei de ler. Nada particularmente iluminador
ou talvez nem tão incomum assim. (Acima do limite no TW e o FB não é
mais uma opção.) Sei que há muitas variações e também que vários
conseguem criar suas próprias estratégias para funcionar bem apesar
dessas dificuldades. Mas, de todo modo, está longe de ser trivial.]

“Sort of like with flirting: I can recognize, sometimes, after long
experience, that someone is SCREAMING a message at me. And I have no
fucking idea what the message is, or what a correct response is,
though I’m keenly aware that a response IS demanded. And then there’s
a whole second-order sadness that I would *like* to say ‘I recognize
you’re trying to express something positive here but you’re actually
hurting me’ and a third-order sadness of knowing that if I explain, I
hurt THEM. And I’ll be inflicting a harm that confuse and disorient
them in the same way they’ve already harmed me. Hopeless tragedy.”

Não importa quem matou Aaron Swartz

Não me sinto inteiramente confortável para falar de Aaron Swartz  – eu não sabia quase nada sobre ele antes de sua morte. Mas por razões diversas eu me vi obcecado por ele tão logo soube (com um atraso de alguns dias) de sua morte. Embora presente, a tristeza não foi a sensação predominante, mas sim a curiosidade. Mas não curiosidade no sentido estritamente produtivo, já que motivada mais por uma perplexidade. No entanto, mais uma vez, essa perplexidade não estava direcionada o evento em si (o suicídio de um jovem notável e de grandes e muitas realizações), mas sim ao fato de continuarmos vivendo, muitos de nós, apesar da prevalência de um enorme descontentamento com o que fizemos de nossas vidas até aqui e da baixa expectativa de realizações futuras. (E aqui estou me restringindo às pessoas que têm plena consciência de possuírem recursos e potencial não realizado e, talvez, não realizável em qualquer circunstância.) Como falarei um pouco mais adiante, Aaron Swartz pode ter “desperdiçado” parte dos recursos que tinha a disposição, ao, em um dado momento, ter escolhido as ferramentas “erradas” para defender suas idéias, mas esse erro é perfeitamente compreensível e foi mais do que compensado por sua mais importante realização, cujo desfecho trágico representou exatamente o seu clímax.

(Naturalmente, não estou insinuando que essa sequência de eventos – e em especial o seu final – tenha sido ou deva ser arquitetada, com base na sua eficiência superior. É fácil imaginar que essas ações e, especialmente, as suas consequências, pessoais e na sociedade, não tenham sido de modo algum planejadas e previstas por AS, assim como, em geral, não o foram por todas as grandes figuras históricas influentes. Mas o fato é que seu ato mais importante foi o seu sacrifício pessoal, não compartilhado, tenha sido ele voluntário ou não, pensado ou impensado, tenha ele se arrependido ou não. Essas considerações são irrelevantes. Meu objetivo aqui é apenas reconhecer a importância desse ponto, em especial no momento exato em que, dada a proximidade e a natureza da tragédia, tantas emoções estejam borbulhando entre os afetados e interessados. Feitas essas ressalvas – bem como as que ainda farei – não creio que o reconhecimento desse ponto necessariamente impeça que alguém valorize ou se interesse pelas diversas manifestações públicas que se seguiram à tragédia.)

Eu já tive a oportunidade de dizer que não tenho grande crença na eficiência da atividade que chamamos de “ativismo” em alcançar os resultados que seus adeptos tendem a propor e, frequentemente, afirmam alcançar. Para ser franco, não consigo ver de fato uma maneira de promover mudanças sistêmicas a não ser que de uma forma muito gradual e quase “inconsciente,” não diretamente intencional, como um efeito colateral raro. E, com certeza, tais mudanças tenderão a depender amplamente das ações de uma figura (ou um pequeno grupo de personagens) internos à estrutura vigente. De todo modo, isso não é para dizer que não vejo qualquer valor no ativismo, em especial em um contexto em que tão poucos estão aptos a assumir as posições realmente relevantes no processo de mudança. Promover algum nível de participação – mesmo que seja apenas uma ilusão sobre a sua influência pessoal – será frequentemente melhor do que deixar as pessoas sem a menor esperança de controle. No entanto, para que o ativismo ainda seja uma atividade minimamente saudável – ou ao menos neutra na média, considerando todos os seus atores diretos e a sociedade – espera-se que ao menos os seus líderes e idealizadores sejam capazes de desenvolver plena consciência das limitações e responsabilidades envolvidas. O que, convenhamos, é tarefa difícil, em especial se tiver que ser realizada não antes do engajamento, mas dentro da própria estrutura da atividade, como o é muito mais frequente.

Dentre os diversos assuntos em torno dos quais a atividade do “ativismo” costuma se desenvolver/concentrar – existe alguma área ainda intocada? – aquele em que sempre me pareceu existir maior potencial de benefícios reais é o da Internet. Mais importante, esta é onde os erros e simplificações grosseiras que norteiam qualquer movimento ativista parecem ter a menor influência sobre o resultado final – em parte por esse tipo de ativismo girar em torno de uma batalha que, por definição técnica, já nasceu com um final previsível, conhecido, positivo para o lado da liberdade da informação, restando apenas traçar o caminho daqui até o seu desfecho inevitável. Assim, aqui, muito embora o nível intelectual seja, em média, superior ao existente nos movimentos que lidam diretamente com a realidade mais dura da política diária, ainda vemos o uso (estratégico) das mesmas palavras de ordem tão conhecidas e antiquadas, da lógica falha e a promoção de visões de mundo limitadas mas eficazes na mobilização.E Aaron Swartz, aparentemente, não era diferente – basta ver seu manifesto, por exemplo. Não acrescenta informação e recorre a uma estrutura arcaica de argumentos para justificar uma suposta e desejada radicalidade que, no contexto da Internet e da cultura subjacente a ela, não é nada mais que seu estado natural, do qual não é possível divergir por mais do que um curto período de tempo.

O problema, claro, não era inerente à figura de AS. O problema é a retórica, o discurso, a síntese dos argumentos utilizados e os precedentes envolvidos. Independente do modo como ele tratou a questão, o que ele fez ao longo da vida (como ativista) foi significativo o suficiente para que, após o fim trágico, tantas outras figuras notáveis demonstrassem tamanha simpatia por ele e por sua causa. No entanto, o modo como ele e esses eventos e desenvolvimentos forem descritos nos “livros de história” terá uma repercussão muito mais ampla e intensa.

A distribuição de versões eletrônicas de artigos acadêmicos é uma questão muito diferente daquela em torno da cópia e distribuição não autorizada de filmes, por exemplo. A princípio, os autores das publicações de fato não parecem ter, ou ao menos não tiveram até hoje, a intenção explícita de lucrar com o material submetido aos periódicos – de fato, o futuro parece apontar para um sistema em que prevalecerão as publicações por iniciativa dos próprios autores. A distribuição dos direitos nas publicações acadêmicas é uma questão particularmente tenebrosa. Por outro lado, parece no mínimo contestável a afirmação generalista de que a indústria de publicações acadêmicas, como existe hoje, seja majoritariamente danosa ao progresso científico. Além disso, essa indústria se consolidou de forma muito rápida ao longo dos últimos anos, em um período de tempo muito curto para que os autores pudessem pensar nas suas consequências ou instaurar suficientes iniciativas envolvendo periódicos de livre acesso. Essa não é uma questão restrita simplesmente aos direitos de propriedade das informações.

Apesar de ter (eu suponho) a maior parte dos recursos (intelectuais) necessários para avançar de fato na discussão, ele parece ter se perdido nos meandros do ativismo, talvez seduzido por seu impacto mais amplo no curto prazo. Curiosamente, seu ato unilateral mais conhecido, realizado de forma silenciosa, secreta, e pelo qual estava sendo processado, foi sua ação mais importante, com muito maior influência sistêmica e de longo prazo que qualquer manifesto ou discurso. Aqui, é importante reconhecer que esse resultado dependeu de forma fundamental da ação ter sido publicada posteriormente e associada a uma figura pública de boa reputação. Assim como, temo dizer, o seu desfecho trágico. Nesse contexto, eu não me sentiria tão desconfortável ao usar a palavra mártir, ainda que ele o tenha sido apenas em um sentido sistêmico, desindividualizado.

Sobre as possibilidades da ação política

O meu desapreço pela classe política e descrença generalizada nas possibilidades da ação política na direção da promoção de modificações desejadas e sustentáveis sobre a sociedade já são bem conhecidas. Tal desapreço possivelmente chegou ao ponto de tornar-se ódio, sentimento que, mesmo não sendo saudável manter por longos períodos de tempo, pode sim, acredito, ser usado de forma ao menos semi-produtiva, desde que seja não seletivo e mantido em um nível controlável. Com segurança, posso dizer ao menos que esse tipo de “ódio” (intolerância universal) é certamente uma alternativa superior às duas opções mais populares: “bovinidade” (falta de reação, tolerância universal) e “ódio seletivo” (direcionado a grupos políticos específicos, intolerância seletiva). No entanto, esse tipo de ódio só faz sentido se realizado no caminho inequívoco de uma ação estrutural mais clara. 

 

Tal descrença e desapreço não precisam levar, necessariamente, a uma postura de rejeição irrestrita do ato de escolher um candidato em que votar em uma eleição. A bem da verdade, contamos com pessoas que sejam capazes de, mesmo que genericamente enojadas, assinalar um voto válido, mesmo que movidas tão somente pela preocupação em afastar o mal que julgam ser o pior dentre as alternativas. No entanto, note que a adoção irrestrita e continuada desse comportamento tende a promover a manutenção da atual estrutura de poder político e incentivos por tempo indeterminado. Espera-se que parte dessas pessoas eventualmente se cansem de “escolher o mal menor” e busquem alternativas diferentes para influenciar o aparato político, mesmo que seja, em um primeiro momento, apenas a rejeição ao voto ou mesmo a pura alienação. No entanto, ainda que eu considere a participação popular na forma de protestos, marchas e afins uma alternativa respeitável (embora pouquíssimo eficiente), creio que, neste momento, precisamos encontrar alguma alternativa mais eficiente.

 

Muito mais do que de políticos bem intencionados tentando promover mudanças de dentro da estrutura atual, precisamos de pessoas intolerantes à atual conjuntura mas habilidosas, que sejam capazes de ganhar a confiança de indivíduos-chave dentro dessas estruturas e de usar essa influência para sabotá-las e incitar ajustes que, na prática, impeçam a remobilização daquelas mesmas forças. A figura do “sabotador” seria, assim, uma alternativa muito mais eficiente do que a primeira, e talvez explique muito mais os avanços sociais registrados na História do que as razões e motivações convencionalmente apresentadas. 

 

Do ponto de vista do cidadão comum, porém, que não tem o perfil do “sabotador ideal”, a posição do ativismo é uma das poucas e mais popular entre as alternativas para influenciar nossa sociedade. Embora positiva e importante, sob a perspectiva individual, convém desfazer-se de ilusões e reconhecer sua enorme limitação quanto a possibilidade de criar uma sociedade que valorize os ideais que você adotou como referência. Esse ativismo pressupõe, em grande parte, que é possível promover mudanças profundas a partir da interação entre as pessoas – por meio do convencimento de seus pares via argumentação e sua propagação por grupos maiores -, visão com origem nos nossos tempos primordiais, onde a política era uma atividade exercida principalmente na esfera pessoal. Nas sociedades modernas, no entanto, políticas públicas de má qualidade não são unicamente derivadas do modo como foram planejadas, mas, tão ou mais importante, resultam de uma complexa, pouco previsível rede de ações humanas que pode facilitar ou dificultar sua implementação, influenciar um resultado positivo ou negativo.

 

Nas comunidades humanas primordiais, com estruturas sociais formadas por um pequeno número de pessoas, a princípio qualquer um teria condições de influenciar a “política” local. Se alguém não concordasse com algum aspecto do funcionamento dessa comunidade, este poderia propor uma alternativa, formar uma coalização em torno dela e de fato fazê-la acontecer. O sucesso dessa alternativa dependia da concordância, talvez, de apenas algumas dezenas de aliados. No entanto, esses mesmos instintos tendem a direcionar nossas ações mesmo nos tempos atuais, em que, diferentemente, precisamos da anuência de, digamos, dezenas de milhões de pessoas. Reconhecer a origem e a ineficácia dessa visão é – a despeito do clichê – o primeiro passo para sugerir formas de ação mais realistas. Esse tipo de ativismo tem corrompido nossos movimentos políticos e conduz as pessoas a falarem demais, debaterem em excesso, a proselitizarem, com pouca ação no mundo real. Formamos coalizações de eleitores para tentar influenciar ou mesmo substituir líderes políticos, ao invés de tentar mudar incentivos sistêmicos mais amplos.

 

Dependendo de onde você se posiciona ou já se posicionou ao longo do espectro ideológico, lhe será natural reconhecer e valorizar o corpo de evidências empíricas que sustenta a máxima de que “incentivos importam”. Para esses talvez seja mais difícil reconhecer que “poder também importa” – ainda que esse fato seja observado historica e cotidianamente em nossa realidade gritante. Membros da classe política têm demonstrado, de forma consistente e universal, serem especialistas natos na arte da ascenção e manutenção do poder. Talvez para a maioria das pessoas essa tendência seja em si imoral, mas, infelizmente, questões sobre moralidade têm baixíssimo potencial de influenciar as realidades do poder. Devemos aceitar que o equilíbrio do poder exibe um nível considerável de inércia, uma realidade que não poderemos mudar com base apenas na esperança ou na fúria.

 

A democracia moderna, como sistema político padrão, se levantou muito acima das alternativas já exploradas até hoje, mas é preciso reconhecer suas limitações, registradas a contento na literatura sobre Escolha Pública. Candidatos tentam (e continuarão tentando) eleger-se por meio da venda de futuros favores políticos, em troca de recursos de campanha e apelo fácil aos votos de eleitores movidos por agendas específicas (muitas vezes em assuntos com forte carga emocional). Candidatos honestos que não abusam de seu poder tendem a ter aceso a um volume menor de recursos para suas campanhas, e, portanto, encontram, intrinsicamente, uma grande desvantagem em uma eleição. Desse modo, é pouco provável que possamos promover mudanças tentando eleger as “pessoas certas” para os cargos públicos. 

 

Assim, é muito provável que, ao expressarmos – nós, cidadãos comuns – um sentimento de revolta contra um grupo político específico, ou mesmo ao propormos uma política pública alternativa para alguma área importante, estejamos apenas exercendo aquele tipo de ativismo, intuitivo e antiquado. O problema não é que os membros da classe política não têm boas idéias ou boas intenções, mas, dado que os legisladores respondem à sua pópria rede de incentivos, de que o próprio sistema democrático opera muito longe da perfeição na hora de escolher entre alternativas de política pública. Embora possam debater por semanas quais são as melhores alternativas para promover crescimento econômico, no fim a eficiência não será o principal critério pelo qual os legisladores as avaliarão. “Tietar”, contra ou a favor de um determinado político ou mesmo de uma política pública específica, não é muito diferente do que reclamar do preço de um produto (esquecendo que ele reflete, em maior ou menor grau, um equilíbrio entre oferta e demanda) – como método para melhorar o desempenho dos políticos isso parece ser tão útil quanto o congelamento de preços o é para incentivar o crescimento econômico. Nesse sentido, debates políticos tendem a ser muito menos importantes do que preferem afirmar. Em nossa intuição agimos como se nossas vozes individuais fossem tão importantes em nossas comunidades quanto as de um membro de uma pequena e isolada comunidade primitiva – e assim comentamos com paixão eventos e questões de impacto nacional, quando, na verdade, na maior parte das questões não atingiremos massa crítica para de fato influenciar a política pública. Debates servem, pelo visto, como uma miragem para nos distrair das questões realmente importantes.

 

Nesse contexto, parece ser útil adotar a visão de que governos são apenas mais uma forma de “indústria”, onde países oferecem serviços aos seus cidadãos, mas, naturalmente, não sem custos para eles. Essa é uma indústria determinada por monopólios “naturais”, geográficos e por uma quase intransponível barreira à entrada de concorrentes. Para dar início a um novo governo é preciso vencer uma eleição (com todos os problemas mencionados acima) – ou, para os que simpatizam com essas alternativas, vencer uma guerra ou promover uma revolução. Vencer uma eleição, no entanto, está longe de ser garantia de ver suas propostas implementadas. O cidadão/consumidor tem pouca opção de substituição do fornecedor: há muitas e severas barreiras migratórias, e a transferência tende a envolver custos muito altos, tanto financeiros quanto emocionais. Em suma, essa é uma indústria com baixíssimo nível de concorrência e assim os governos tendem a explorar seus cidadãos, ao invés de inovar e oferecer serviços de qualidade como forma de atraí-los. Essa perspectiva expõe as limitações das estratégias baseadas na vitória no “debate de idéias”, que, embora nobre, é ineficiente. Sem uma pressão mais consistente, estrutural, à parte alguns pequenos ajustes pontuais, nossas instituições continuarão gerando políticas públicas de má qualidade que beneficiarão a classe política em primeiro lugar.

 

Somos frequentemente levados a pensar que o principal problema para alcançar a sociedade com que sonhamos seja o de promover o compartilhamento, na maior amplitude possível, de um certo conjunto de valores (aqui, haverá, claro, enorme diversidade de definições para o que caracterizaria uma “boa” sociedade) – a partir daí, bastaria embutir esses valores em um sistema de leis e pronto. O fato, porém, é que mesmo que conquistássemos considerável concordância sobre esse conjunto de valores centrais, isso não seria suficiente para vê-los em prática, já que, nos sistema democráticos, não existe forma trivial de se derivar mecanismos legais que garantam sua realização. Criar políticas públicas é, na verdade, a parte fácil do processo e a sua implementação não é um detalhe trivial. Se vermos a criação e implementação de políticas públicas como um comportamento que emerge das interações, pouco previsíveis, entre diferentes instituições, notaremos que o potencial da ação política planejada em promover mudanças profundas é, de fato, muito baixo.

 

Limitados a trabalhar no contexto das instituições já existentes, a promoção de mudanças estruturais deve passar, necessariamente, por mudanças em políticas públicas, por meio das quais será sempre muito difícil vencer a grande rede de interesses que sustenta e explora a estrutura do poder político, que tenderá a resistir a qualquer tipo de inovação. Apesar dessa perspectiva sombria, se há alguma esperança de mudança ela poderá estar sobre consequências indiretas ou “inesperadas” de ações empreendidas sem qualquer objetivo político. Nesse ponto, destaca-se o potencial do desenvolvimento tecnológico em mudar estruturas de incentivos – como a Internet promovendo a mobilização e a difusão de idéias. Estratégias de mudança baseadas no uso de tecnologia tendem a ser, em geral, muito mais eficientes do que alternativas que busquem mudar, à força, o modo como as pessoas pensam. No entanto, o uso da tecnologia, sendo ela muito mais recente na história humana do que a arte da persuasão, é uma estratégia muito menos intuitiva. 

A Inclusão Escolar em Belo Horizonte

Como pais de duas crianças autistas matriculadas e (ainda, mas, aparentemente, por pouco tempo) frequentes no ensino infantil da rede pública municipal de Belo Horizonte recebemos da prefeitura, há mais ou menos duas semanas, uma curiosa e bem produzida “cartilha” sob o título de “Inclusão Escolar das Pessoas com Deficiência na Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte”. Neste, indica-se como data de publicação o mês de março de 2012 e, embora tenha sido, naturalmente, editado e distribuído pela Secretaria Municipal de Educação, teve, em sua produção, “contribuições” das Secretarias de Saúde e de Assistência Social. Antes de começar a comentar mais esse belo exemplar de folhetim publicitário produzido pela PBH em ano eleitoral, lembremos que a atual administração municipal adotou, para essa área (educação), o slogan “Belo Horizonte, Cidade Educadora”. Minha primeira reação – e a mais natural possível, claro – foi de ceticismo, mas foi logo acompanhada de grande curiosidade e, de certo modo, alguma felicidade, já que é interessante que a prefeitura deixe mais ou menos clara sua posição sobre o assunto, mesmo que no fim nos sirva apenas de material contra o qual contrapor a terrível realidade. A cartilha tem aproximadamente 30 páginas, embora parte significativa do espaço é usado para apresentar indicações, endereços e telefones de postos de saúde, regionais da prefeitura e outras unidades de assistência social – que é, de fato, a única parte útil da publicação. Durante a leitura, me coloquei a assinalar os pontos questionáveis, que iam do uso de expressões de impacto e floreamentos até a afirmações revoltantemente falsas. Claro que, em pouco tempo, notei que estive assinalando quase todo o texto e que esse nível de detalhamento era inútil.

 

A prefeitura afirma ter sua Política de Inclusão fundamentada em 3 diretrizes: “acesso ao conhecimento” (inclusive por meio de recursos de acessibilidade pedagógica), “permanência qualificada na escola” (incluindo o monitoramento do desempenho e a articulação com a Secretaria de Saúde) e “aprendizagem” (via atendimento pedagógico individual e formação e orientação pedagógica específica para os educadores). É curioso como a escolha de palavras utilizadas nessa publicação por um lado tenta louvar os (falsos) avanços que afirmam ter sido realizados pela atual administração e por outro tenta cercar, cuidadosamente, todas as potenciais fragilidades, tornando vários pontos passíveis de interpretação (inclusive as mais execráveis e distantes da realidade possíveis). Assim, por exemplo, a criança necessitará de recursos pedagógicos específicos apenas “em alguns casos”, que, claro, eles terão total liberdade para identificar e julgar conforme sua conveniência. Mais precisamente, alunos autistas, por convenção (arbitrária), não têm acesso à salas de recursos especiais (salas multifuncionais) do “Atendimento Educacional Especializado”. O uso dessas salas teria o objetivo de “favorecer funções desempenhas pelas pessoas com deficiência em seu cotidiano” e, no caso da maioria dos autistas, teriam o potencial de ajudá-los na apreensão de linguagens alternativas. Tais salas, aliás, existem em número limitadíssimo, especialmente em algumas regionais e se essa política de inclusão não fosse tão ineficaz no “recrutamento” de pessoas com deficiência, esse desequilíbrio entre oferta e demanda, que resulta em baixíssima frequência de uso por aqueles que têm acesso, seria ainda mais difícil de tolerar. 

 

Pois que a Secretaria Municipal de Educação decidiu que os alunos autistas seriam “atendidos” no próprio ambiente escolar, com membros da sua respectiva equipe de inclusão orientando os educadores. Aqui, há ao menos dois pontos a serem colocados. Primeiro, que o número de componentes das equipes de inclusão de cada regional da cidade é muito pequeno, com boa parte deles sendo obrigado a varrer áreas e número de escolas grandes demais, com pouquíssimo tempo disponível para sequer pensar no atendimento individualizado preconizado pela atual administração. De fato, tais equipes de inclusão são formadas por um ou dois supostos “especialistas” em educação especial e mais alguns “monitores”. Não fosse o bastante, o nível de preparação desses profissionais é dos mais baixos possíveis, a ponto de vermos as escolas vendo como positiva a baixa frequência da equipe de inclusão em suas instalações. A professora de minha filha mais velha, por exemplo, relata apenas 2 ou 3 visitas, no período de mais ou menos um ano, da responsável pela equipe de inclusão de nossa regional, e que tal “especialista” não fez mais do que recomendar, de forma veemente, que ela obrigasse a criança a participar das atividades em classe do mesmo modo que suas colegas neurotípicas, inclusive forçando-a a permanecer sentada pelo tempo regulamentar, sem oferecer qualquer justificativa ou sugestão de transição ou método. Algo similar foi feito com o processo de desfralde, não tendo havido qualquer orientação, mas apenas a pressão para que fosse realizado no menor tempo possível. Fica, claro, a impressão de que tais diretrizes têm como objetivo apenas a eventual redução de custos futuros na contratação e manutenção de auxiliares escolares (Auxiliar de Apoio à Inclusão) que, em geral, são responsáveis pelo acompanhamento e auxílio individual, inclusive nos cuidados com a higiene, nos períodos de aula. Embora a referida cartilha afirme a possibilidade e até incentive o contato de pais com as equipe de inclusão, esse acesso não é facilitado, especialmente se perceberem que aqueles que os procuram estão minimamente informados. Recorrer ao auxílio da direção das escolas em geral é infrutífero, porque, naturalmente, tais postos tendem a ser preenchidos por pessoas que, mesmo que bem intencionadas, não estão dispostas a arriscar seus potenciais de ascenção na carreira pública – isto se não tiverem participado direta e ativamente da própria concepção de tais programas. Vale notar que essa realidade não está muito distante daquela que sofre QUALQUER criança que frequente UMEIs pela cidade, inclusive as neurotípicas.

 

Enquanto isso, a PBH tem tratado, com competência singular, de construir novas UMEIs pela cidade, aumentando assim o número de vagas na educação infantil. Essas novas unidades são projetadas para ter, sem exceção, infra-estruturas exemplares (a escola em que meus filhos estudam é um caso), que, no final, serão habitadas por educadoras que, ainda que comprometidas com as crianças e bem intencionadas, serão rigorosamente desassistidas, limitadas e desrespeitadas por toda a estrutura da Secretaria Municipal de Educação. O problema é a evidente tendência de pessoas das mais diversas experiências serem seduzidas por esse tipo de brilho externo, desde aqueles que apenas passam diariamente diante das escolas até os próprios pais dos alunos, muitos sequer capazes de perceber a estrutura apodrecida por trás da simpatia e dos sorrisos da direção.

 

Como ato final dramático, eis que fomos alertados para uma reviravolta inesperada, apoteótica e que afetará TODAS as crianças no ensino infantil de Belo Horizonte: a de que, todas as crianças, hoje na educação infantil, que completarem 6 anos de idade em qualquer ponto do ano de 2013, serão forçadas pela prefeitura de Belo Horizonte a migrarem diretamente para o ensino fundamental, perdendo assim um ano adicional que teriam nas UMEIs. E assim, continuamente, a partir de 2013, crianças com 5 anos estarão no 1º ano do 1º ciclo do ensino fundamental. Tal resolução foi assinada em conjunto pela Secretaria Municipal de Educação (ato final da queridíssima secretaria municipal, antes de sua exoneração para integrar o lado do principal candidato de oposição) e pela Secretaria Estadual. Alegam ter como base o resultado (parcial) de uma ação judicial em Pernambuco que garantiu a POSSIBILIDADE de crianças nessa situação ingressarem no ensino fundamental, DESDE QUE comprovada capacidade intelectual – um resultado particularmente interessante, quisera eu ter tido acesso a ele em meu tempo! No entanto, a prefeitura alega que isso a obriga a forçar TODOS os alunos a fazer essa migração, independente de capacidade intelectual ou de neurotipicidade. Imagine minha filha autista, quase a completar 5 anos de idade, que ainda não desenvolveu linguagem oral nem alternativas, que ainda precisa de auxílio em sala de aula até para cuidados de higiene, que hoje, em ambiente escolar, conta apenas com uma ótima infraestrutura e com o carinho de algumas educadoras, e que, por essas regras, seria obrigada a se transferir para uma escola do ensino fundamental que não tem sequer a estrutura e, eventualmente, nem mesmo pessoal dedicado (em parte por demais regras arbitrárias aplicadas sobre as educadoras para desestimulá-las a criar laços, inclusive um rodízio forçado). Em reunião na escola de meus filhos, realizada hoje, ainda tivemos que ouvir da direção a mentira descarada de que essas são regras “definidas pelo Governo Federal” e que afetarão todo o país, quando diversos contatos que realizamos com pessoas de diversos estados brasileiros revelaram, claramente, que ninguém mais, além de nós, bem aventurados, informados e pioneiros belohorizontinos, sabe disso. A direção ainda fez o peculiar adendo (que deixou claro ser estritamente particular) de que, dada essa regra, “poderá haver falta de vagas” no ensino fundamental no próximo ano e que por isso eles deveriam aproveitar a generosa oferta da prefeitura de fazer um pré-cadastramento escolar (que oficialmente acontecerá em agosto, via correios, como usual) que garantiria a vaga de seus filhos na escola municipal mais próxima, sob pena de ficar entregue à sorte e, eventualmente, ser deslocado para uma escola mais distante. Pior mesmo foi não ver qualquer reação dos pais, que, anestesiados, nem mesmo esboçaram uma expressão mais consistente de surpresa. E é exatamente com essa postura anestesiada que a Prefeitura de Belo Horizonte e seus sorridentes agentes diretos nas escolas, contam para fazerem o que lhes for politica e economicamente mais conveniente.

 

Mas o que podemos esperar para o futuro próximo? A ruptura na base de apoio político da atual administração na verdade tratou de GARANTIR que esse tipo de mentalidade será mantida em BH por ao menos mais 4 anos, já que essas são as duas principais opções eleitorais para o município. Infelizmente, boa parte das pessoas continua valorizando a política e o jogo de soma zero dos partidos e acreditará que a principal alternativa à atual administração poderá de fato trazer uma realidade diferente para a cidade. Estes se apegarão ao fato do candidato dessa coalização ser tido como uma pessoa “diferente” e que, a princípio, acredito ser, ao contrário do atual prefeito, uma pessoa sincera, preocupada e comprometida com … Bem, antes de mais nada, é importante lembrar que ele é – assim como qualquer outro político “bem intencionado” – uma pessoa comprometida com a idéia de promover “avanços sociais” (seja qual for a definição de cada um para o que isso, mas DENTRO da estrutura partidária, não A DESPEITO dela. Portanto, ele sofrerá com limitações que ele terá que tolerar e com algumas que ele eventualmente sequer conseguirá identificar como tais. Uma dessas limitações é trabalhar, gostando ou não, com, basicamente, a mesma equipe que não apenas esteve comprometida com a atual administração municipal, mas que também ajudou a construir essa mesma mentalidade acima mencionada (se é que não foi a peça chave no processo). Que fique claro que ele é mais uma peça, mesmo que relativamente importante, em uma estrutura muito complexa, que, mesmo que tenha boas intenções em seu cerne, terá que fazer concessões demais, acomodar preferências demais e controlar visões diferentes demais sobre os caminhos para se chegar a um determinado objetivo. Alguns argumentarão, com razão, que essa diversidade é um “exemplo de convivência e controle democrático”, nesse ponto muito distinta da realidade da maioria dos demais partidos políticos. No entanto, é ingenuidade achar que essa opção não tem suas próprias desvantagens. Naturalmente, essa é uma propriedade estrutural e refletida, em maior ou menor grau, em todos os partidos políticos, exceto, talvez, em alguns partidos muito jovens e muito pequenos. Não estou insinuando que essas considerações devem ser tratadas como fundamentais para escolher o seu voto, mas apenas alertando para a importância de reconhecê-las e não manter ILUSÕES. Infelizmente, a máxima de “votar no menor de dois males” parece continuar muito popular entre os eleitores. Ainda pior, as eleições continuam sendo, ao gosto dos políticos de todas as partes do espectro ideológico, sem exceção, o ÚNICO exercício democrático do cidadão, quando na verdade este é, possivelmente, a MENOS importante e menos eficiente alternativa de ação.

 

Se nossos destinos estão definidos para os próximos 4 anos, há ao menos algum resquício de esperança para os ciclos seguintes? Seria pessimista demais dizer que não há qualquer possibilidade, mas dada a quase universalidade e estabilidade da estrutura comentada no parágrafo anterior, qualquer pessoa razoável não seria capaz de dizer-se esperançoso. Qualquer mudança real, mesmo pequenos ajustes, dependem de participação e pressão popular maciça. Mas, cuidado, não o tipo ilusório de “participação popular” que costuma ser até mesmo incentivada pela própria estrutura do poder político. Falo de participação genuína, espontânea, coordenada mas profundamente descentralizada. As poucas vezes em que esse tipo de mobilização popular surgiu em BH o resultado parece ter sido bastante positivo – mesmo que estas tenham sido voltadas para questões “menores”, tiveram um efeito pedagógico bastante profundo, sobre a população e sobre a classe política. No entanto, essas iniciativas ainda são novidade no município e é aqui que, infelizmente, a suposta “mineiridade” pode ser um obstáculo – ou ao menos essa é a impressão que construí ao longo de tantos anos conversando e observando o comportamento de belohorizontinos de diferentes idades e classes sociais, um pouco diferente do que vi, por exemplo, em cidades como Salvador, SP e RJ.

 

Por fim, devo dizer que me incomoda bastante a baixa popularidade das questões de interesse das pessoas com deficiência. Antes de tudo, esse fato me é incompreensível e são três as razões principais. Primeiramente, algumas dessas questões não são de interesse exclusivo de deficientes físicos e mentais. Em segundo lugar, mesmo as questões de interesse exclusivo na verdade embutem uma perspectiva muito mais ampla e capaz de afetar a todos – a princípio, o que podemos esperar de uma sociedade que não trata bem (ou, eventualmente, nem mesmo reconhece!) pessoas com deficiência? Por fim, não consigo acreditar que a proporção das pessoas de algum modo afetadas por essas questões seja tão pequena assim – afinal, quantos realmente não têm um familiar, amigo ou colega de estudo ou trabalho que tem um filho ou irmão deficiente? Não acredito que essas pessoas não se importem, então o problema aqui pode ser, realmente, de conscientização, isto é, de alertá-los para esse fato e para como decisões de políticas públicas podem afetar a qualidade de vida do deficiente e de seus familiares e cuidadores imediatos. Talvez, por “sorte”, você conviva com ou só tenha conhecimento de deficientes cujas famílias podem independer de serviços e ações públicas. Saiba, no entanto, que mesmo essas famílias, com raras exceções, são obrigadas a manter um padrão de vida muito abaixo do que poderiam e deveriam ter, sob uma saúde financeira muito precária, precisamente por não ter acesso a QUALQUER tipo de atendimento público com um mínimo de qualidade e humanidade. Sem contar, claro, com a imensidão de famílias que, em incapacidade, são obrigadas a engolir qualquer serviço público “especializado” que for oferecido – se chegarem a ter a sorte de existir alguma oferta.