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Abandonando toda música

branca

É claro que me senti estranho escrevendo este texto. Afinal, me sinto tentado (“racionalmente”) a assumir uma posição desconfortável, compartilhada apenas por certos tipos de fundamentalismos cristãos (puritanismo) e muçulmanos (Taliban).

Minha posição é, de fato, radical: Música é como um parasita. Naturalmente, não tenho qualquer motivação “espiritual” ou “religiosa” pra chegar à essa conclusão (muito ao contrário), nem tampouco estou tentando defender o ascetismo. O argumento central deriva da Memética e de uma análise custo-benefício simples. Em princípio, este é bastante próximo de vários argumentos já usados por diferentes correntes ateístas para rejeitar as religiões.

Por “abandonar toda música” quero dizer algo em um sentido próximo ao que “deixar de acreditar em Deus” implica em “tornar-se ateu.” Isso é diferente de “não gostar de música” ou não conseguir apreciá-la (por alguma característica física, por exemplo). Pra ser sincero, como a maioria das pessoas, eu gosto muito de música – e ainda assim me dei ao trabalho de escrever um texto tentando denunciar eventuais consequências negativas.

Estou tomando como premissa o conceito de que música é um memeplexo (isto é, um grupo de memes que se apoiam e reforçam mutuamente) – do mesmo modo que as religiões e a linguagem – e portanto se comporta como um replicador e está sujeita à processos evolutivos similares aos biológicos (darwinismo universal).

Eu não vou fornecer argumentos pra defender diretamente a posição “a vida sem música é uma vida melhor”, mas apenas questionar alguns argumentos mais comuns usados para justificar ou explicar a importância da música para humanos(1).

Quem faz uma afirmação substancial (por exemplo, “a música é fundamental para o bem estar humano”) é que precisa apresentar argumentos e evidências. Para defender uma posição de ceticismo, basta atacar as evidências que os proponentes da afirmação apresentam (não é necessário fornecer uma prova de impossibilidade). Essa é a mesma lógica usada no ateísmo.

Argumentos favoráveis

História

Seres humanos têm produzido música por (ao menos) milhares de anos (talvez milhões) – nossos cérebros evoluíram para encorajar esse comportamento ou preferência.

Essa é uma falácia, já que o “argumento” oferece apenas uma descrição do que foi observado e não tem suficiente poder normativo. A evolução também nos deu grande capacidade para matar, por exemplo. É preciso fornecer evidências para benefícios reais e presentes na atualidade.

Integração social

Sociedades humanas têm se unido, entre outras coisas, em torno da música. A produção e a apreciação musical são atividades coletivas. A música é parte importante da identidade das pessoas e é uma das razões pelas quais as sociedades humanas são tão estáveis e produtivas.

Este é, provavelmente, o argumento favorável mais forte. De fato, a música oferece um mecanismo de coesão social muito eficiente e é mesmo possível que a sociedade como a conhecemos não fosse funcional sem ela. Mas note que podemos dizer o mesmo das religiões: não existe sequer um exemplo histórico de salto civilizacional importante que não tenha contado com grande apoio de crenças religiosas. Essa observação, no entanto, não confere qualquer veracidade à essas crenças (apenas conveniência). Além disso, a própria conveniência ou necessidade no passado não determina a sua importância para o futuro.

Prazer

Humanos sentem grande prazer produzindo e consumindo música. Ela evoca uma grande variedade de emoções, ajuda a dar significado à vida.

Na verdade, nós não gostamos de música por causa de seus benefícios, mas porque ela é feita para ser agradável (e nos modificou no processo). Ela age sobre nosso sistema de recompensa cerebral e sobre nossos mecanismos de resposta à diversas emoções, de modo a manter a sua importância. Mentes entediadas têm maior potencial de propagação, então qualquer música de sucesso vai incluir seleção para essa propriedade. Isso soa óbvio para qualquer observador externo, mas, como com qualquer tipo de relação de dependência química, não para os afetados pelo vício.

Além disso, dizer que “prazer” em si mesmo é algo bom (ou valor terminal) é no mínimo tautológico. Seria difícil sustentar esse argumento sem levá-lo à sua extensão lógica: estimulação direta do sistema de recompensa cerebral, com eletrodos e tal (o que mesmo alguns hedonistas parecem evitar defender).

 

Moralidade

A música é capaz de influenciar nosso comportamento moral. Expor uma criança à seleção musical ‘correta’ irá forjar o seu caráter de uma maneira positiva.

Essa é uma afirmação relativamente forte, em especial porque não parece ter qualquer evidência a seu favor. Até onde sei, não existe nenhum estudo que apresente uma ligação substancial entre (ausência de) educação musical e criminalidade.

Por outro lado, a associação entre música e alguns tipos de doutrinação é bem estabelecida. A maioria dos cultos, religiões ou manifestações ideológicas em geral explora o impacto emocional da música para promover coesão de grupo ou mesmo a agressividade para com grupos rivais.

Atividade econômica

A indústria musical gera grande riqueza, emprega um grande contingente de trabalhadores e movimenta a economia como um todo.

Assim como a cocaína.

Simbiose benéfica

Música é útil: aumenta nossa capacidade de identificar padrões, ajuda a aprender idiomas, auxilia o tratamento de transtornos mentais, facilita o acesso a outros memes (úteis). Crianças que aprendem a tocar instrumentos musicais em geral melhoram o desempenho escolar.

Obviamente, esse argumento não passa de uma racionalização. Mas vamos a ele mesmo assim.

Ao contrário do que a maioria deve imaginar, não existe “uma vasta literatura” com evidências de apoio a qualquer uma dessas afirmações. A afirmação menos controversa parece ser a da utilidade para aprender idiomas estrangeiros – e mesmo assim as evidências coletadas até o momento ainda estão longe de serem conclusivas.

Mas usar música para esses fins vale o seu preço? Somos mesmo capazes de limitar seus impactos negativos, suas consequências inesperadas? As propriedades que tornam a música tão eficiente como meio para alcançar algumas finalidades positivas são exatamente as mesmas denunciadas ao longo do texto. Ao invés de usar música para alcançar pequenos benefícios na escola ou em outros contextos, talvez devêssemos usar o tempo para ler mais livros ou desenvolver o pensamento crítico. É possível que atacar o problema diretamente seja mais eficiente do que recorrer a uma sinergia simbiótica.

Há quem diga que a música teria sido uma das grandes forças propulsoras do desenvolvimento do cérebro humano. Eram necessárias máquinas meméticas mais potentes para espalhar música pelo ecossistema, então fomos selecionados para esse fim. Do nosso ponto de vista, é claro que esse foi um desenvolvimento positivo: o cérebro é uma máquina memética universal (não especializada em um meme em particular), então qualquer outro tipo de meme útil também foi beneficiado. No entanto, talvez seja adequado reverter o controle agora. Talvez não seja mais necessário manter qualquer tipo de afiliação com a música e devamos usar os recursos liberados para outros fins!

O uso psicoterapêutico da música, porém, parece justificar-se – em parte porque as alternativas existentes hoje não são boas. No entanto, este é um caso de oferta de tratamento para transtornos mentais, não de uso recreativo.

Espiritualidade

Entweder durch den Einfluss des narkotischen Getränkes, von dem alle ursprünglichen Menschen und Völker in Hymnen sprechen, oder bei dem gewaltigen, die ganze Natur lustvoll durchdringenden Nahen des Frühlings erwachen jene dionysischen Regungen, in deren Steigerung das Subjektive zu völliger Selbstvergessenheit hinschwindet. Auch im deutschen Mittelalter wälzten sich unter der gleichen dionysischen Gewalt immer wachsende Schaaren, singend und tanzend, von Ort zu Ort (…). Es gibt Menschen, die, aus Mangel an Erfahrung oder aus Stumpfsinn, sich von solchen Erscheinungen wie von “Volkskrankheiten”, spöttisch oder bedauernd im Gefühl der eigenen Gesundheit abwenden: die Armen ahnen freilich nicht, wie leichenfarbig und gespenstisch eben diese ihre “Gesundheit” sich ausnimmt, wenn an ihnen das glühende Leben dionysischer Schwärmer vorüberbraust.

– Friedrich Nietzsche, Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik(2)

O uso da música com propósitos espirituais parece abranger todo o espectro de práticas místicas, incluindo orações, meditações, rituais xamânicos e outros centrados no uso de drogas específicas.

De fato, é possível que exista uma forte correlação entre “ser espiritualizado” e “gostar de música,” dada a facilidade com que ambos grupos de memes costumam nos afetar (a ineficiência de nosso sistema imuno-memético diante deles).

Curiosamente, este parece ser o argumento mais difícil de atacar. Você poderia dizer que “espiritualidade” (no sentido mais amplo de “experiências místicas”, não de “teísmo”) é ruim em si mesma, mas mesmo os mais materialistas parecem evitar essa posição. Dizer que, com frequência, o recurso à experiências místicas conduzirá à pseudociência ou superstições também é problemático, sendo possível citar um espectro mais ou menos “benigno” que vai de Michael Persinger (neuroteologia) ao Dalai Lama, passando por Sam Harris (meditação).

“Conclusões”

Várias atitudes em relação à música – e suas respectivas racionalizações – parecem indistinguíveis do mais puro “vício memético.” Somos explorados pela música, que forjou nossas mentes para alcançar vantagens reprodutivas. Esse memeplexo tem todas as características de um vício, consumindo o máximo de recursos possível mas garantindo a manutenção da funcionalidade mínima do hospedeiro. Somos continuamente encorajados a consumir mais música, buscar novidades, recomendar aos amigos, etc. Espalhar como fim em si mesmo. “Boa” música em geral é definida por sua popularidade (potencial memético ou de virar um “verme de ouvido”), não por benefícios (paupáveis) que eventualmente conferem aos indivíduos que a consomem. Afirmar “não ouvir música” é algo mais alienígena do que dizer-se ateu, com a diferença de que as chances de ser levado a sério são quase inexistentes. A resposta mais comum (à possibilidade hipotética, não à realidade da sua afirmação) seria algo como “minha vida seria tão vazia e sem significado sem música!”, ou “o que alguém assim teria de errado? uma depressão profunda?”, seguido de uma lista interminável de recomendações, porque “tem que existir algum tipo de música que você goste.” Isso é claramente muito mais hostil do que a reação típica ao ateísmo (lembrando ser comum que se considere o ateísmo moralmente mais condenável do que vários tipos de comportamento criminoso).

Isso simula de maneira muito próxima o comportamento de dependentes químicos. Se você não devota uma certa parcela mínima da sua vida à música, você deve “tentar com mais afinco.” Toda educação musical aspira encontrar formas de aumentar seu impacto. A maior parte do que é produzido não contém qualquer mensagem relevante, não ensina nada, não dá nada além de prazer. Ela burla o propósito da existência do sistema de recompensa cerebral, optando por estimulá-lo diretamente, sem precisar dar nada palpável em troca. É um parasita.

Mas e agora? Isso tem mesmo uma mínima chance de fazer um mínimo de sentido? Não pode ser! Imaginem: a nona sinfonia de Dvořák é um parasita? Old school Norwegian black metal é realmente satânico? Não! E mesmo que fosse, alguém conseguiria mesmo viver sem música? Eu conseguiria? Digo, uma vida funcional, produtiva. Partindo de 20, 30 anos de audição musical quase diária. Não morreríamos de depressão, tédio, nostalgia musical?

Bem, ouçamos os que se desconverteram. De crenças religiosas, teísmo.

É claro que nem todo comportamento parasítico é completamente prejudicial ou não tem qualquer potencial de alinhamento com os interesses do hospedeiro. Para começar, eles compartilham algum nível de interesse na manutenção do bem estar do hospedeiro. O importante é reconhecer que a prioridade do vírus é sua replicação. É responsabilidade do hospedeiro, nesse caso, manter a simbiose da relação.

Use responsavelmente. Não se exceda. Faça pausas. Não se repita demais. Diversifique seus gostos musicais. Evite o mainstream. Não faça várias coisas ao mesmo tempo (multitasking) com música. Sempre precisar de uma música de fundo pra fazer as coisas (definir um humor) é um indício sério de que você já perdeu o controle.

Novos hábitos preencherão o vazio, hábitos talvez melhores.


(1) Na verdade, eu até poderia fornecer ao menos um argumento simples em favor dos benefícios de uma vida sem música: economia de recursos. Você provavelmente estaria melhor se substituísse o tempo que gasta buscando, ouvindo, catalogando/organizando, pensando em e discutindo música com alguma atividade realmente benéfica. No entanto, eu defenderia a racionalidade da minha posição mesmo em um mundo hipotético em que aquelas atividades não consumissem recursos.

(2) Ou por meio da bebida narcotizante, que por todos os homens e povos primitivos é cantada em hinos, ou por ocasião do imenso aproximar da primavera, que atravessa toda a natureza cheia de alegria, acordam aquelas emoções dionisíacas, em cujo aumento desaparece o subjetivo sob completo esquecimento de si mesmo. Na Idade Média alemã também se dobravam, sob idêntica força dionisíaca, hordas sempre crescentes, cantando e dançando de lugar para lugar. (…) Existem homens que, por falta de experiência ou por estupidez, se afastam de tais aparecimentos como de “doenças populares”, ironizando-as ou as lamentando, no sentir da própria saúde: estes pobres não suspeitam de como se torna cadavérica e fantasmagórica esta sua saúde, quando por eles passa, tormentosa a vida ardente de entusiastas dionisíacos.

(Nietzsche: O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música.)

On why I hate the news

The New York Times subsists on, and sells, a toxic brew of incompetence, arrogance,
and bad faith. Incompetence: this is a near-universal of journalism, seems like the nature of the thing. To understand, try this exercise. Keep your eyes open for newspaper and magazine articles on things you have direct personal knowledge of – things you actually saw or skills you’ve developed. Stuff you’ve actually lived. When you find an article like that, ask yourself how correct it is. Don’t even worry about the conclusions, just the basic facts: names, numbers, claims. I’ve rarely seen better than 60% accuracy (To estimate journalistic incompetence, think of errors you personally know about and extrapolate). The simple factual grounding of nearly every article I had independent knowledge about was appallingly inept. So here’s the
next question: Why should you believe the same sources when they speak of anything else? Answer: you shouldn’t. That’s not what they’re for. So that’s the first aspect: ignorance. I don’t claim the NYT is any worse than any other source in that respect, mind you. But it’s not much of a service to drink the cleanest, finest sewage in the
land, either.

Second part: arrogance. The NYT isn’t just another news source, it’s the Newspaper of Record. I generally avoid the term ‘pretentious’ but it fits here. The weird grammatical affectations, the overt contempt for anyone and anything outside the Manhattan cultural bubble – when an Oscar Wilde struts around in funny clothes mocking people, it’s charming! When a third-rate nonentity does the same, it’s revolting. The NYT is a third-rate nonentity that thinks it’s Oscar Wilde. And
that’s arrogance, the second factor.

Part 3: bad faith in the NYT. An example is Krugman cashing out his technical expertise in the coin of demagoguery. It’s not that he’s doing it at all – such exchanges are a proud tradition – but that he’s so damned sloppy about it.

Must a newspaper be “objective”? No, of course not, that’s impossible, bla bla bla, and yet… Back to the ignorance thing. Journalists are generalists; they’re always approaching stories as newcomers. They don’t know their subjects. Should that be the case? I don’t know, but it certainly is the case, overwhelmingly, and it’s plausible
that it must be. But if a journalist, or a journalistic organization, is never terribly clear on the facts, they do know their own worldview, if passively. I think this points toward the problem that the objectivity argument misses. Facts are murky, one’s
own values are clear. If you mistake clarity of values for clarity of fact, that’s a worse corruption than mere subjectivity.

Procreation and Suicide

On the pressing issue of suicide among the youth, I have already seen too many posts and comments all over the web to the effect that once a person knows/accept that history/others’ experiences point to the fact that parents almost never “move on” with their lives following a kid’s suicide he should not consider suicide anymore – that independent of his actual conditions/misery, his behavior will always be considered purely selfish, self-centered  and morally wrong.

I’m a parent myself and I know for sure that “moving on” would be an extremely difficult thing to do; quite possibly, I wouldn’t be able to do it. (Damnit, I cringe at the mere thought of something bad (accidental) happening to my kids.) I don’t know much about other people’s parental relationships, but I guess my gut reactions to this are not that far away from what would be considered typical among most parents. (In fact, the near-certainty one has that one would end up feeling this way could be considered an acceptable argument against having kids in the first place.)

The problem here lies in the fact that that kind of parental attachment, despite having all sorts of underlying evolutionary, biological reasons, may also impose an almost unbearable weight to a human’s existence. Keep in mind that in order to see that kind of dynamics in place we don’t even need to focus on anything so extreme as suicide itself: consider a huge list of “life options” or “life styles” which are often viewed as possibly detrimental to one’s relationship to one’s parents. Likewise, there are a lot of people who would consider “likely consequences to your parents psychological wellbeing” as a major – if not the main – criterium to be applied to anyone’s big life decisions.

As an only child, you shouldn’t consider moving to Japan.

(i.e. you should proactively constrain the universe of possible career paths by default)

You should never regularly engage in any ‘risky’ activity (by any measure of risk), be it practicing an ‘extreme’ sport or even choosing certain professions, despite of you liking them that much, mainly because of the likely psychological effects that an eventual, accidental death or injury would cause to your parents.

 

Despite of your particular life circumstances, killing yourself would be the most egoistic act one could ever imagine. Especially so if you have loving, caring parents. They will never recover themselves. Given this clear realization, no suffering/hopelessness would ever be relevant enough.

 

The above situations seem to be misleading for at least two simple reasons:

  • They assume that there’s no suffering intense enough to rival the suffering resulting from the realization that your act would possibly decisively reduce the chances of a loved person ending up experiencing significant pleasure in the future.
  • They seem to assume that “giving life” is never anything short of a wonderful gift.

 

Giving up such a gift (actually, destroying it forever, as one couldn’t give one’s life to another person instead) sounds like a direct affront to those who generously brought it to you in the first place. It does seem to be the case for the majority of people, but the amount of suffering in the world isn’t negligible by any measure. There’s a huge diversity of ways (and constraints to the ways) a person can experience and react to what is happening around him. Anyway, it seems difficult to most people to unambiguously see exceptions to the “rule” that states that life is the perfect, ultimate gift.

 

Given enough thought and effective help, it’s quite possible that most lives would be considered “worth living” (from the person’s own perspective), but the most useful resources are scarce (empathy being one of the scarcest ones). We should refrain from the temptation of applying our own perspectives and mindframes to other persons. Full or even partial recovery may be really costly sometimes and it’s not up to ourselves to say what level of quality of life a person should tolerate/live with.

 

From that point of view, giving birth and raising a child, albeit being a wonderful experience and potentially a “gift” (in the sense described above), for both parent and child, may also give rise to a relationship having many aspects that could be considered unhealthy or even unfair, especially from the child’s perspective. In that respect, I would rather see my kid ending his suffering in some way to involuntarily making him (by means of my silence and general lack of emotional support) stick to his misery without end. As a father, I consider that his current and prospective concrete suffering takes complete precedence over my likely-but-still-uncertain suffering in the future.

Theory of Instruction

There can be real science behind Education. Ziegfried Engelmann’s followers (or: enthusiasts of his work) and collaborators would even say that education is a solved problem[1].

What follows is based mainly on the first chapter of Engelman’s “Theory of Instruction”, first published in 1982 – a dry theoretical tome I’m actually still reading.

The Theory of Instruction (ToI) has a few simple theoretical foundations.

The environment is assumed to be the primary cause of what is learned – but the learner is also considered to be a variable. In this context, how do we investigate the relationship between the environment and the learner? Since controlling the learner is actually “impossible”, we must perform the experimental control of the environment. One way to do this is by logically designing a “faultless” communication process so that only one interpretation is (logically) possible/permissible. A faultless communication process could be defined as one that is logically capable of transmitting the underlying concept or skill to any learner (provided they have certain minimum attributes that are going to be defined below). Note that the focus is on the logical analysis of the stimuli, instead of the behavioral analysis of the learner.

The performance of the learner in  the learning task or how he responds to the faultless communication reveals important information about the learner. Specifically, information on how he deviates from the “perfect” response (derived from a behavioral analysis of the learner) shows the extent to which he does or does not possess the mechanisms necessary to respond to the faultless communication of the concept, as well as (in the later case) the way one must design instruction intended to modify his capacity to respond to that communication. The strategy is then used for designing instructional sequences and for deriving principles for communicating with the learner.

ToI also makes some assumptions about the learner. In order to provide for control of the maximum number of communication variables we must postulate a simple learning mechanism, as well as assume that the learner’s behavior is lawful (i.e. if he possesses the proposed mechanism then he will learn exactly what the communication is intended to teach). The proposed learning mechanism has two attributes:

  • The capacity to learn any quality from examples.
  • The capacity to generalize to new examples on the basis of sameness of quality.

Here “quality” is any irreducible feature of an example. The first attribute indicates what the mechanism is capable of learning so that the only limiting factor is the acuity of the underlying sensory processes. The second attribute suggests how learning occurs – in this case, the mechanism somehow makes up a rule that indicates which qualities are common to the set of examples used to teach a concept. This way, the generalizations achieved are completely explained in terms of the examples (and their possible common qualities).

ToI postulates that the primary difference between very different cognitive skills is the quality that is to be learned – and that comes from concrete examples, instead of the learner himself. The process of learning is considered to be exactly the same, regardless of what is to be learned. The postulate implies the type of structure we must provide to cause specific generalizations. The primary analysis of cognitive learning must be an analysis of qualities of examples and the communications that present such qualities to the learner (stimulus-locus analysis).

A communication aimed at inducing a specific generalization must meet the following structural conditions or requirements (derived directly from the assumptions about the learning mechanism)[2]:

  • The set of positive examples demonstrates only one identifiable quality.
  • The communication must also provide a signal that accompanies each example that has the quality to be generalized (e.g. saying “red” while presenting differently-shaped objects colored in red).
  • It must present a range of examples that show the physical variation of the examples that exhibit a common quality.
  • It must also present negative examples to show the limits of the variation in quality that is permissible for a given concept (boundaries for the range of permissible variations).
  • It must provide a test to assure the learner has received the information provided by the communication (positive and negative examples that had not been demonstrated earlier, but that are implied by the range of variation of the qualities to be generalized).

The techniques one may use to efficiently design a faultless communication (or to correct an inappropriate one) also follow from the above structural requirements: select the alternative that is most efficient and show uniqueness more emphatically. At the same time, the design of test examples can be reduced to some how-to-do-it formula once you know what test examples must do.

The observation of deviations from the predicted response (given a verifiably faultless communication) means that the learner does not have – or is not using – the assumed learning mechanism. It also means that we know (based on empirical findings on learning) how we must modify the learner’s capacity to produce the desired responses (response-locus analysis)[3].

Summary

If the student has not learned, the teacher has not taught.

ToI assumes students are lawful things: given a certain environment with certain stimuli, they will react to them in entirely lawful/predictable ways. E.g., given an explanation, the student will arrive at an interpretation that is logically compatible with that evidence.

Fundamental problem: often multiple interpretations are compatible with the presented evidence, while only one interpretation is intended.

Solution: give carefully constructed evidence that logically rules out all but one interpretation (faultless communication). (The most important mistake of failed instruction is that it is logically ambiguous – the student can choose wrong interpretations, those are rarely found out early through tests and further understanding becomes impossible.)

So now I only need to apply the theoretical framework to the problem of self-education and figure out a way of deriving (and effectively testing) a number of different experimental course designs. How do I teach myself a complex discipline/skill without mastering the content itself (only knowing the logically correct way of organizing and presenting evidence – and of designing and allocating tests through time)?

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[1] I.e., the theoretical work has been mostly done already, so one just needs to master and modify it, in much the same sense that scientists figured out mechanics but people still need to become “engineers” to be able to use it (so to speak). And yes, Theory of Instruction enthusiasts are usually a  evangelical in their language, but given the current (and historical) state of affairs in education (i.e. how horrible everyone else is – schools could conceivably be considered one of the worst institutions ever) one eventually “gets the hate” and accept the need to put some heads in spikes. Direct Instruction (DI) is the implementation of the ToI for (mostly K-8) schools, made possible by the same people (i.e. Engelmann and collaborators). ToI focuses primarily on the theoretical underpinning of any effective instruction, while DI deals with practical constraints. DI is considered to be the only theory in the entire history of education that has any serious empirical evidence whatsoever.

[2] ToI seems to be related to the principle of logical induction. As it happens, induction is pretty much what learning is. Also note that a logically unambiguous communication design is simply one that makes causes transparent (in the sense of Judea Pearl’s construction of causality). On the other hand, it’s one thing to abstractly know that a successful induction must obey certain laws, and then to actually remember to apply these laws when teaching concepts outside of logic itself.

[3] The modification involves specific guides about the amount of practice, massing and distribution of trials, schedules of reinforcement, and other variables that influence the response.

Crianças autistas viram adultos autistas

Pais de crianças com desenvolvimento atípico nem sempre estão em uma posição favorável para identificar os aspectos em que este se afasta de maneira significativa do padrão esperado. Essa era uma realidade especialmente importante há uma ou mais décadas atrás, dado o menor e menos difundido conhecimento sobre autismo, mesmo entre profissionais. Em particular, se os “desvios” apresentados não resultassem em problemas de comportamento, do  modo como estes são definidos para crianças “normais”, eram grandes as chances de que fossem ignorados. Assim, pais de uma criança que, ao invés de agredir colegas de brincadeira, demonstrasse preferência por brincadeiras solitárias, dificilmente se sentiriam alarmados ou mesmo levariam à sério eventuais (e improváveis) alertas de familiares ou profissionais. É hoje menos incomum que indivíduos autistas sejam diagnosticados na idade adulta. Em retrospecto, é possível que descrições de pais, outros familiares ou mesmo do próprio indivíduo sobre sua infância demonstrem que os sinais de autismo estavam presentes naquele período, ainda que de forma menos aparente ou que não tenham sido percebidos, na época, como anormais (dado não terem resultado em comportamentos problemáticos).

No caso de crianças autistas não-verbais, havendo ou não deficiência intelectual, é comum que seus pais se apresentem – e na prática de fato o sejam, na maioria das vezes – como “vozes” de seus filhos, as únicas a defender seus interesses em uma sociedade não-inclusiva. Ainda assim, é importante não perder de vista um fato bastante óbvio:  os pais não são a criança. Com frequência, não existirá sobreposição perfeita entre os interesses do indivíduo autista e os interesses de seus pais e cuidadores. É possível dizer com alguma segurança que estes coincidem em torno do desejo pelo máximo bem estar atual e futuro do indivíduo autista, mas encontrar formas eficientes e humanas de conduzir a esse estado futuro é um processo muito mais desafiador. A criança autista, assim como qualquer outra criança, já é uma pessoa distinta de todas as outras, que experimenta os vários aspectos da vida de uma forma particular e indissociável de sua identidade. Todos esperamos que essas crianças, como quaisquer outras, atinjam a idade adulta. Crianças autistas tornam-se adultos autistas. Aqui nos defrontamos mais uma vez com uma afirmação tola, mas este é um fato que tem sido sistematicamente esquecido ou desconsiderado pela sociedade e, às vezes, em especial pelos próprios pais.

O foco exclusivo da sociedade e dos investimentos sobre crianças autistas, ainda que compreensivo, não é ruim apenas para o cotidiano direto e a qualidade de vida dos adultos (em especial os que necessitam de apoio significativo, que com frequência se vêem desassistidos).  A mente de uma criança, por definição, ainda não está completamente desenvolvida. Assim, o baixo (ou menor) interesse pela mente do autista adulto significa perder oportunidades de adquirir conhecimento importante sobre os processos mentais subjacentes ao autismo em geral – e de usar essa informação no planejamento de intervenções terapêuticas a serem aplicadas no início da vida dos indivíduos.

Uma sociedade em que pais são as vozes exclusivas de alguns indivíduos autistas é uma sociedade melhor do que uma em que esses não têm qualquer voz. No entanto, falar por um autista é uma tarefa não-trivial. Por mais que se importem e estejam dispostos a sacrifícios por seus filhos, a capacidade de falar por esses é limitada pela dificuldade de entender a mente do autista. Essa dificuldade se apresenta em um nível superior à dificuldade natural de entender uma criança com desenvolvimento típico, que com frequência será capaz de expressar seus sentimentos de algum modo útil. O envolvimento emocional dos pais, que tende a ser mais intenso se as crianças exibem necessidades especiais, pode na verdade oferecer um entrave adicional à compreensão do autista, havendo menos tempo, disposição e capacidade para se dar um “passo atrás” e observar o comportamento deste de uma forma mais sistemática.

Os padrões de desenvolvimento típicos de uma criança, embora ainda desafiadores, seriam de algum modo passíveis de previsão. Assim, é possível identificar marcos e eventuais problemas pela comparação com o que se reconhece como “processos normais” e usar toda a vasta experiência anterior com o manejo de crianças neurotípicas para tomar decisões razoavelmente informadas sobre a “educação” de um filho. Mas ter acesso aos processos mentais de uma criança autista é uma tarefa muito mais desafiadora. É muito mais fácil enganar-se sobre as razões subjacentes a um comportamento ou a algo dito por uma criança autista – ou mesmo de um adulto, ainda que de alto funcionamento. As questões sensoriais que afetam autistas (estímulos simples que podem provocar muito mais prazer ou muito mais incômodo, ou nem serem percebidos pela maioria das pessoas) são outra grande fonte de erros de interpretação por parte de pais, cuidadores e mesmo profissionais. Nesse aspecto, a profunda falta de compreensão do indivíduo autista conduziria à cenários não muito distantes da pura tortura (submeter a criança à um estímulo que provoca reações contrárias às desejadas). Aqui, parece razoável admitir que, ao contrário dos objetivos declarados, algumas intervenções terapêuticas parecem ter sido criadas ou planejadas desconsiderando o fato de que crianças autistas viram adultos autistas. É como se a infância – e em especial suas primeiras fases – fosse um campo de guerra em que o único pecado admissível é o da dúvida.

Crianças autistas não devem ser tratadas com base apenas no que se conclui e avalia da observação de seus comportamentos. Devemos sempre considerar que, ainda que de difícil acesso ao olhar externo, a vida dessas crianças é tão influenciada por aspectos emocionais e cognitivos quanto as vidas de qualquer outra pessoa. Não é certo agir como se não existissem emoções, ou como se essas fossem irrelevantes diante da “tarefa hercúlea e crítica de prepará-las para navegar uma sociedade não inclusiva”. A maioria dos pais hoje acha fundamental considerar as possíveis consequências emocionais de suas decisões relacionadas à educação de seus filhos. Por qual razão tem sido diferente com crianças autistas?

Indivíduos autistas são com frequência exortados – e formalmente educados – a prestar atenção nas pessoas à sua volta, considerar perspectivas que não a sua, a não serem (involuntariamente) rudes, etc. Por outro lado, é comum que outras pessoas (às vezes até mesmo pais e profissionais, ainda que de forma não intencional) desconsiderem as peculiaridades do autista e o estado emocional subjacente a seu comportamento. Em circunstâncias mais extremas, é possível a um autista ser tratado com grande desrespeito ou mesmo ser submetido a dor física. Nesse contexto, algumas intervenções terapêuticas parecem ter sido criadas levando em conta apenas a perspectiva de indivíduos não autistas. Mesmo que se reconheça a possibilidade de certo comportamento “inadequado” aumentar as chances do autista ser exposto a algum tipo de agressão, a reação padrão da sociedade é a de recomendar a mudança ou supressão desse comportamento, julgando valer a pena fazer o indivíduo incorrer em um custo desconhecido por todos exceto por ele próprio. Assim, adultos autistas podem desenvolver uma sensação clara de que sempre serão estrangeiros em qualquer ambiente que frequentarem e que o custo de seu “desenvolvimento pessoal” (o seja, na direção neurotípica) é alto demais comparado aos potenciais benefícios.

Interação social de pessoas autistas

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, versão 5 (DSM V), indivíduos diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA) podem apresentar um ou mais de uma série de déficits. Em sua apresentação mais severa, o autista pode mostrar-se completamente incapaz de se comunicar ou falar, mas mesmo o mais inteligente e verborrágico autista exibirá problemas de comunicação social de algum tipo e nível. Mas, afinal, como um indivíduo capaz de exercer a razão, falar e expressar com precisão o que sente pode ter déficits de comunicação e interação social?

A razão reside na própria natureza do processo de interação social. De um modo geral, as pessoas não sabem – ou, ao menos a princípio e em um primeiro momento, não racionalizam ou intelectualizam – porque fazem ou mesmo como elas conseguem executar certas tarefas. Muitas fazem o que parece (sentem) ser certo fazer. A própria interação de uma pessoa neurotípica (“normal”) com um indivíduo autista pode soar “estranha” ao primeiro, sem que este, no entanto, seja capaz de dizer com precisão em que sentido. O processo de comunicação social, da forma com que evoluiu, não tem como objetivo – ou ao menos não como objetivo principal – maximizar a eficiência da troca de informações entre os interlocutores, mas sim ser um instrumento para formação e manutenção de relações (úteis) entre as pessoas. Ainda que parte significativa das interações humanas pareçam completamente ausentes em conteúdo prático, não seguir seu roteiro básico pode levar um indivíduo a sofrer graves consequências sociais.

Qualquer déficit em interação social deve ser entendido em um contexto mais subjetivo das expectativas sociais que emanam de cada sociedade, cultura ou grupo de pessoas. Nesse sentido, uma pessoa incapaz de se comunicar no idioma local se encontraria em um cenário pior que o de um autista (de alto funcionamento), mas nem por isso sua situação seria qualificada como resultante da presença de um “transtorno mental”.  Mesmo o domínio do idioma formal não seria suficiente para o funcionamento adequado em qualquer grupo de pessoas ou subcultura, que podem exibir expectativas e regras sociais muito diferentes umas das outras. Muitas pessoas “normais” enfrentam problemas de comunicação e interação fora de seus contextos familiares, profissionais e culturais, onde suas perspectivas e talentos particulares são mais úteis e portanto mais valorizados.

Embora a complexidade e o propósito da comunicação e interação social em geral não sejam aspectos explicitamente considerados pelas pessoas, essas terão facilidade para identificar, ainda que em um nível não consciente, aqueles que falharem na satisfação das expectativas subjacentes. Tais falhas serão atribuídas, quase sempre, à uma recusa a agir em conformidade com as regras sociais – e não como falta de conhecimento ou dificuldade de processamento de informações sociais (uma possibilidade nem sequer reconhecida por quem as absorveu de forma natural). A capacidade de usar a linguagem para expressar de forma precisa os próprios pensamentos e emoções não é suficiente. É preciso tomar parte em um jogo complexo com regras e instruções que não estão disponíveis em lugar algum (nem mesmo nas mentes de seus melhores jogadores).