Uma teoria das idéias excêntricas

Selon Wikipedia:

Crank magnetism is a term popularized by physiologist and blogger Mark Hoofnagle to describe the propensity of cranks to hold multiple irrational, unsupported or ludicrous beliefs that are often unrelated to one another. Crank magnetism may be considered to operate wherever a single person propounds a number of unrelated denialist conjectures, poorly supported conspiracy theories, or pseudoscientific claims.

[…] virtually universal characteristics of cranks include:

1. Cranks overestimate their own knowledge and ability, and underestimate that of acknowledged experts.
2. Cranks insist that their alleged discoveries are urgently important.
3. Cranks rarely, if ever, acknowledge any error, no matter how trivial.
4. Cranks love to talk about their own beliefs, often in inappropriate social situations, but they tend to be bad listeners, being uninterested in anyone else’s experience or opinions.

É desse modo possível formular três Axiomas da Excentricidade Ortodoxa:

Axioma da Não Autoridade (ANA): a aceitação de uma crença não é/não deve ser influenciada pelo número ou pelo poder político de seus proponentes.

Axioma da Lealdade (AL): revisar uma crença é o mesmo que traí-la.

Axioma da Propaganda (AP): a única razão válida para falar sobre uma crença é ter como objetivo convencer os interlocutores a adotá-la.

A aceitação de todos os três axiomas dá origem ao “excêntrico clássico”. A aceitação de ANA e AL, em particular, conduz naturalmente à visão de que quase todo consenso científico na verdade reflete algum tipo de conspiração. Ou seja, de que o consenso foi construído para facilitar o recrutamento de novos membros para um grupo com objetivos comuns. O que pode ser alcançado convencendo o maior número possível de pessoas sobre a veracidade da crença apresentada, em especial suas consequências e as previsões que permite fazer. O modo como a adoção desse crença deve orientar as decisões individuais e coletivas, incluindo as recomendações de políticas públicas dela derivadas.

A partir desses Axiomas da Excentricidade Ortodoxa podemos derivar versões mais gerais (do mesmo modo que podemos derivar geometrias não-euclidianas abandonando o “Postulado das Paralelas”). Entre outras coisas, ficará claro que os axiomas AL e AP não são equivalentes.

Nós poderíamos relaxar o Axioma da Não-Autoridade. Para isso bastaria, por exemplo, levar em consideração o conceito de evidência (no sentido bayesiano) e o Teorema de Concordância de Aumann: agentes bayesianos adaptativos e interagentes, com os mesmos priors, sempre irão convergir. Então, assumindo que cientistas/pesquisadores estão de fato buscando a verdade, a maioria deles convergiria para uma posição consensual e a existência de posições majoritárias poderia ser tomada como evidência suficiente para a existência de uma crença real. Essa não seria, no entanto, uma rejeição completa deste axioma, já que poderiam existir outras explicações para a existência de um consenso. O abandono de ANA resultaria em uma Religião Ortodoxa com Doutrinas Oficiais.

Alternativamente, podemos abandonar o Axioma da Lealdade, mas manter o Axioma da Propaganda, resultando no Sofismo: a idéia de que devemos convencer os outros, independente dos argumentos ou recursos necessários para esse fim. Por exemplo, incluindo a possibilidade de contradição ou de mudar uma crença. Desse modo, vemos que AL e AP de fato não são equivalentes. Por outro lado, se abandonarmos ambos axiomas, derivamos o Pós-modernismo clássico.

No entanto, existe no Pós-modernismo uma possibilidade adicional e interessante a explorar. Se a maioria das pessoas aceita AP, é possível argumentar de uma maneira que o viola apenas não abertamente. Do que podemos derivar um quarto axioma:

Axioma da Trollagem (AT): o propósito de discutir uma crença é entreter a si mesmo e/ou a outros.

Se agora aceitamos AT (no lugar de AP), mas ainda rejeitamos AL, derivamos o Discordianismo: crenças são ferramentas que usamos para nos divertir e/ou nos “iluminar”, podendo ser livremente manipuladas.

Como está escrito no Principia Discordia:

Grande Pateta: Éris é verdade?
Mal-2: Tudo é verdade.
GP: Mesmo coisas falsas?
M2: Mesmo coisas falsas são verdade.
GP: E como pode ser isso?”
M2: Eu não sei cara, eu não fiz isso.

Mas uma rejeição completa de AL (não ter qualquer tipo de compromisso com alguma crença) pode parecer muito radical. Talvez exista um equilíbrio, uma versão em que podemos substituir os motivos que nos levaram de AP para AT. Aqui propomos um quinto axioma:

Axioma da Pureza Ritualística (APR): revisar uma crença é torná-la “impura” e inadequada à prática ritualística.

Podemos interpretar APR como uma tentativa de respeitar o ideal arquetípico de uma crença, que só poderia ser alterada de maneiras específicas. Podemos “desconstruir” uma crença desde que mantenhamos sua essência, as motivações centrais para sua existência e manutenção. No entanto, uma crença revisada (ou “desconstruída”) não é em si apta ao uso ritualístico, cuja prática também precisa ser reconstruída (mais uma vez, mantidos motivação e contextos originais).

Seria esse o domínio do Excêntrico Reformado, consciente de sua natureza e posição.

Segundo a Mitologia Discordiana acreditar que apenas algumas crenças são verdadeiras é resultado da Ilusão Anerística (aparente ordem). De modo similar, acreditar que apenas alguns métodos para descobrir a verdade são verdadeiros seria resultado de uma Ilusão Meta-Anerística. No entanto, daí concluir que todas as crenças são falsas derivaria de uma Ilusão Erística (aparente desordem) e, do mesmo modo, concluir que todas as crenças são atos de sinalização derivaria de uma Ilusão Meta-Erística.

O Excêntrico Reformado, consciente dessa dinâmica, respeita a integridade das crenças, ao mesmo tempo em que é transparente na sua concepção de que são todas elas construções arbitrárias, não necessariamente refletindo a realidade. Todas as crenças seriam crenças excêntricas. Excêntricos competentes apenas seriam honestos em relação a isso.

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