Abandonando toda música

branca

É claro que me senti estranho escrevendo este texto. Afinal, me sinto tentado (“racionalmente”) a assumir uma posição desconfortável, compartilhada apenas por certos tipos de fundamentalismos cristãos (puritanismo) e muçulmanos (Taliban).

Minha posição é, de fato, radical: Música é como um parasita. Naturalmente, não tenho qualquer motivação “espiritual” ou “religiosa” pra chegar à essa conclusão (muito ao contrário), nem tampouco estou tentando defender o ascetismo. O argumento central deriva da Memética e de uma análise custo-benefício simples. Em princípio, este é bastante próximo de vários argumentos já usados por diferentes correntes ateístas para rejeitar as religiões.

Por “abandonar toda música” quero dizer algo em um sentido próximo ao que “deixar de acreditar em Deus” implica em “tornar-se ateu.” Isso é diferente de “não gostar de música” ou não conseguir apreciá-la (por alguma característica física, por exemplo). Pra ser sincero, como a maioria das pessoas, eu gosto muito de música – e ainda assim me dei ao trabalho de escrever um texto tentando denunciar eventuais consequências negativas.

Estou tomando como premissa o conceito de que música é um memeplexo (isto é, um grupo de memes que se apoiam e reforçam mutuamente) – do mesmo modo que as religiões e a linguagem – e portanto se comporta como um replicador e está sujeita à processos evolutivos similares aos biológicos (darwinismo universal).

Eu não vou fornecer argumentos pra defender diretamente a posição “a vida sem música é uma vida melhor”, mas apenas questionar alguns argumentos mais comuns usados para justificar ou explicar a importância da música para humanos(1).

Quem faz uma afirmação substancial (por exemplo, “a música é fundamental para o bem estar humano”) é que precisa apresentar argumentos e evidências. Para defender uma posição de ceticismo, basta atacar as evidências que os proponentes da afirmação apresentam (não é necessário fornecer uma prova de impossibilidade). Essa é a mesma lógica usada no ateísmo.

Argumentos favoráveis

História

Seres humanos têm produzido música por (ao menos) milhares de anos (talvez milhões) – nossos cérebros evoluíram para encorajar esse comportamento ou preferência.

Essa é uma falácia, já que o “argumento” oferece apenas uma descrição do que foi observado e não tem suficiente poder normativo. A evolução também nos deu grande capacidade para matar, por exemplo. É preciso fornecer evidências para benefícios reais e presentes na atualidade.

Integração social

Sociedades humanas têm se unido, entre outras coisas, em torno da música. A produção e a apreciação musical são atividades coletivas. A música é parte importante da identidade das pessoas e é uma das razões pelas quais as sociedades humanas são tão estáveis e produtivas.

Este é, provavelmente, o argumento favorável mais forte. De fato, a música oferece um mecanismo de coesão social muito eficiente e é mesmo possível que a sociedade como a conhecemos não fosse funcional sem ela. Mas note que podemos dizer o mesmo das religiões: não existe sequer um exemplo histórico de salto civilizacional importante que não tenha contado com grande apoio de crenças religiosas. Essa observação, no entanto, não confere qualquer veracidade à essas crenças (apenas conveniência). Além disso, a própria conveniência ou necessidade no passado não determina a sua importância para o futuro.

Prazer

Humanos sentem grande prazer produzindo e consumindo música. Ela evoca uma grande variedade de emoções, ajuda a dar significado à vida.

Na verdade, nós não gostamos de música por causa de seus benefícios, mas porque ela é feita para ser agradável (e nos modificou no processo). Ela age sobre nosso sistema de recompensa cerebral e sobre nossos mecanismos de resposta à diversas emoções, de modo a manter a sua importância. Mentes entediadas têm maior potencial de propagação, então qualquer música de sucesso vai incluir seleção para essa propriedade. Isso soa óbvio para qualquer observador externo, mas, como com qualquer tipo de relação de dependência química, não para os afetados pelo vício.

Além disso, dizer que “prazer” em si mesmo é algo bom (ou valor terminal) é no mínimo tautológico. Seria difícil sustentar esse argumento sem levá-lo à sua extensão lógica: estimulação direta do sistema de recompensa cerebral, com eletrodos e tal (o que mesmo alguns hedonistas parecem evitar defender).

 

Moralidade

A música é capaz de influenciar nosso comportamento moral. Expor uma criança à seleção musical ‘correta’ irá forjar o seu caráter de uma maneira positiva.

Essa é uma afirmação relativamente forte, em especial porque não parece ter qualquer evidência a seu favor. Até onde sei, não existe nenhum estudo que apresente uma ligação substancial entre (ausência de) educação musical e criminalidade.

Por outro lado, a associação entre música e alguns tipos de doutrinação é bem estabelecida. A maioria dos cultos, religiões ou manifestações ideológicas em geral explora o impacto emocional da música para promover coesão de grupo ou mesmo a agressividade para com grupos rivais.

Atividade econômica

A indústria musical gera grande riqueza, emprega um grande contingente de trabalhadores e movimenta a economia como um todo.

Assim como a cocaína.

Simbiose benéfica

Música é útil: aumenta nossa capacidade de identificar padrões, ajuda a aprender idiomas, auxilia o tratamento de transtornos mentais, facilita o acesso a outros memes (úteis). Crianças que aprendem a tocar instrumentos musicais em geral melhoram o desempenho escolar.

Obviamente, esse argumento não passa de uma racionalização. Mas vamos a ele mesmo assim.

Ao contrário do que a maioria deve imaginar, não existe “uma vasta literatura” com evidências de apoio a qualquer uma dessas afirmações. A afirmação menos controversa parece ser a da utilidade para aprender idiomas estrangeiros – e mesmo assim as evidências coletadas até o momento ainda estão longe de serem conclusivas.

Mas usar música para esses fins vale o seu preço? Somos mesmo capazes de limitar seus impactos negativos, suas consequências inesperadas? As propriedades que tornam a música tão eficiente como meio para alcançar algumas finalidades positivas são exatamente as mesmas denunciadas ao longo do texto. Ao invés de usar música para alcançar pequenos benefícios na escola ou em outros contextos, talvez devêssemos usar o tempo para ler mais livros ou desenvolver o pensamento crítico. É possível que atacar o problema diretamente seja mais eficiente do que recorrer a uma sinergia simbiótica.

Há quem diga que a música teria sido uma das grandes forças propulsoras do desenvolvimento do cérebro humano. Eram necessárias máquinas meméticas mais potentes para espalhar música pelo ecossistema, então fomos selecionados para esse fim. Do nosso ponto de vista, é claro que esse foi um desenvolvimento positivo: o cérebro é uma máquina memética universal (não especializada em um meme em particular), então qualquer outro tipo de meme útil também foi beneficiado. No entanto, talvez seja adequado reverter o controle agora. Talvez não seja mais necessário manter qualquer tipo de afiliação com a música e devamos usar os recursos liberados para outros fins!

O uso psicoterapêutico da música, porém, parece justificar-se – em parte porque as alternativas existentes hoje não são boas. No entanto, este é um caso de oferta de tratamento para transtornos mentais, não de uso recreativo.

Espiritualidade

Entweder durch den Einfluss des narkotischen Getränkes, von dem alle ursprünglichen Menschen und Völker in Hymnen sprechen, oder bei dem gewaltigen, die ganze Natur lustvoll durchdringenden Nahen des Frühlings erwachen jene dionysischen Regungen, in deren Steigerung das Subjektive zu völliger Selbstvergessenheit hinschwindet. Auch im deutschen Mittelalter wälzten sich unter der gleichen dionysischen Gewalt immer wachsende Schaaren, singend und tanzend, von Ort zu Ort (…). Es gibt Menschen, die, aus Mangel an Erfahrung oder aus Stumpfsinn, sich von solchen Erscheinungen wie von “Volkskrankheiten”, spöttisch oder bedauernd im Gefühl der eigenen Gesundheit abwenden: die Armen ahnen freilich nicht, wie leichenfarbig und gespenstisch eben diese ihre “Gesundheit” sich ausnimmt, wenn an ihnen das glühende Leben dionysischer Schwärmer vorüberbraust.

– Friedrich Nietzsche, Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik(2)

O uso da música com propósitos espirituais parece abranger todo o espectro de práticas místicas, incluindo orações, meditações, rituais xamânicos e outros centrados no uso de drogas específicas.

De fato, é possível que exista uma forte correlação entre “ser espiritualizado” e “gostar de música,” dada a facilidade com que ambos grupos de memes costumam nos afetar (a ineficiência de nosso sistema imuno-memético diante deles).

Curiosamente, este parece ser o argumento mais difícil de atacar. Você poderia dizer que “espiritualidade” (no sentido mais amplo de “experiências místicas”, não de “teísmo”) é ruim em si mesma, mas mesmo os mais materialistas parecem evitar essa posição. Dizer que, com frequência, o recurso à experiências místicas conduzirá à pseudociência ou superstições também é problemático, sendo possível citar um espectro mais ou menos “benigno” que vai de Michael Persinger (neuroteologia) ao Dalai Lama, passando por Sam Harris (meditação).

“Conclusões”

Várias atitudes em relação à música – e suas respectivas racionalizações – parecem indistinguíveis do mais puro “vício memético.” Somos explorados pela música, que forjou nossas mentes para alcançar vantagens reprodutivas. Esse memeplexo tem todas as características de um vício, consumindo o máximo de recursos possível mas garantindo a manutenção da funcionalidade mínima do hospedeiro. Somos continuamente encorajados a consumir mais música, buscar novidades, recomendar aos amigos, etc. Espalhar como fim em si mesmo. “Boa” música em geral é definida por sua popularidade (potencial memético ou de virar um “verme de ouvido”), não por benefícios (paupáveis) que eventualmente conferem aos indivíduos que a consomem. Afirmar “não ouvir música” é algo mais alienígena do que dizer-se ateu, com a diferença de que as chances de ser levado a sério são quase inexistentes. A resposta mais comum (à possibilidade hipotética, não à realidade da sua afirmação) seria algo como “minha vida seria tão vazia e sem significado sem música!”, ou “o que alguém assim teria de errado? uma depressão profunda?”, seguido de uma lista interminável de recomendações, porque “tem que existir algum tipo de música que você goste.” Isso é claramente muito mais hostil do que a reação típica ao ateísmo (lembrando ser comum que se considere o ateísmo moralmente mais condenável do que vários tipos de comportamento criminoso).

Isso simula de maneira muito próxima o comportamento de dependentes químicos. Se você não devota uma certa parcela mínima da sua vida à música, você deve “tentar com mais afinco.” Toda educação musical aspira encontrar formas de aumentar seu impacto. A maior parte do que é produzido não contém qualquer mensagem relevante, não ensina nada, não dá nada além de prazer. Ela burla o propósito da existência do sistema de recompensa cerebral, optando por estimulá-lo diretamente, sem precisar dar nada palpável em troca. É um parasita.

Mas e agora? Isso tem mesmo uma mínima chance de fazer um mínimo de sentido? Não pode ser! Imaginem: a nona sinfonia de Dvořák é um parasita? Old school Norwegian black metal é realmente satânico? Não! E mesmo que fosse, alguém conseguiria mesmo viver sem música? Eu conseguiria? Digo, uma vida funcional, produtiva. Partindo de 20, 30 anos de audição musical quase diária. Não morreríamos de depressão, tédio, nostalgia musical?

Bem, ouçamos os que se desconverteram. De crenças religiosas, teísmo.

É claro que nem todo comportamento parasítico é completamente prejudicial ou não tem qualquer potencial de alinhamento com os interesses do hospedeiro. Para começar, eles compartilham algum nível de interesse na manutenção do bem estar do hospedeiro. O importante é reconhecer que a prioridade do vírus é sua replicação. É responsabilidade do hospedeiro, nesse caso, manter a simbiose da relação.

Use responsavelmente. Não se exceda. Faça pausas. Não se repita demais. Diversifique seus gostos musicais. Evite o mainstream. Não faça várias coisas ao mesmo tempo (multitasking) com música. Sempre precisar de uma música de fundo pra fazer as coisas (definir um humor) é um indício sério de que você já perdeu o controle.

Novos hábitos preencherão o vazio, hábitos talvez melhores.


(1) Na verdade, eu até poderia fornecer ao menos um argumento simples em favor dos benefícios de uma vida sem música: economia de recursos. Você provavelmente estaria melhor se substituísse o tempo que gasta buscando, ouvindo, catalogando/organizando, pensando em e discutindo música com alguma atividade realmente benéfica. No entanto, eu defenderia a racionalidade da minha posição mesmo em um mundo hipotético em que aquelas atividades não consumissem recursos.

(2) Ou por meio da bebida narcotizante, que por todos os homens e povos primitivos é cantada em hinos, ou por ocasião do imenso aproximar da primavera, que atravessa toda a natureza cheia de alegria, acordam aquelas emoções dionisíacas, em cujo aumento desaparece o subjetivo sob completo esquecimento de si mesmo. Na Idade Média alemã também se dobravam, sob idêntica força dionisíaca, hordas sempre crescentes, cantando e dançando de lugar para lugar. (…) Existem homens que, por falta de experiência ou por estupidez, se afastam de tais aparecimentos como de “doenças populares”, ironizando-as ou as lamentando, no sentir da própria saúde: estes pobres não suspeitam de como se torna cadavérica e fantasmagórica esta sua saúde, quando por eles passa, tormentosa a vida ardente de entusiastas dionisíacos.

(Nietzsche: O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música.)

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