Pessoas autistas têm autismo

l_sitting_position

Essa parece ser uma afirmação estúpida em sua obviedade, mas no momento é importante repeti-la à exaustão. É estranha a reação média das pessoas a autistas que conseguem se expressar verbalmente: espera-se deles não possuir ou ao menos não exibir qualquer sinal de autismo. Pessoas diretamente envolvidas com o assunto, em geral por serem pais ou terem como familiar uma criança de baixo funcionamento, podem vê-los como ameaça aos conceitos que construíram para lhes dar força para lidar com o cotidiano. Entre leigos e pessoas externas, impera um sentimento de estranheza em relação a pessoas que, teoricamente aptas a tentar esconder suas diferenças, “optam” por não fazê-lo.

É possível que uma das principais causas desse fenômeno resida na incapacidade humana de compreender com um mínimo de precisão o funcionamento de uma mente alheia. No caso do autismo de alto funcionamento essa tendência é agravada pela observação de que boa parte desses indivíduos na realidade são capazes de se comunicar e tentar entender a si mesmos. No entanto, os critérios diagnósticos para o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) descrevem características que são manifestações SIGNIFICATIVAS de como diferenças neurológicas podem provocar diferenças no comportamento e na forma de se expressar de indivíduos autistas.

Segundo a quinta e mais recente edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V), são dois os pilares diagnósticos de TEA (ênfases minhas):

A. Déficits PERSISTENTES na comunicação social e interação social, ao longo de MÚLTIPLOS CONTEXTOS, apresentados da seguinte maneira (exemplos são ilustrativos e não-exaustivos)

  • Problemas de interação social ou emocional alternativo – Isso pode incluir a dificuldade de estabelecer conversas e interações, a incapacidade de iniciar uma interação e problemas com a atenção compartilhada ou partilha de emoções e interesses com os outros.
  • Problemas para relações – Isso pode envolver uma completa falta de interesse em outras pessoas, a dificuldade de se engajar em atividades sociais apropriadas à idade e problemas de adaptação a diferentes expectativas sociais.
  • Problemas de comunicação não verbal – o que pode incluir dificuldade no contato visual, postura, expressões faciais, tom de voz e gestos, bem como a incapacidade de entender esses sinais não verbais de outras pessoas.

B. Comportamentos repetitivos e restritivos

Além disso, o indivíduo deve apresentar pelo menos dois destes comportamentos:

  • Apego extremo a rotinas e padrões e resistência a mudanças nas rotinas, sinais ritualísticos.
  • Fala ou movimentos repetitivos
  • Interesses intensos e restritivos
  • Dificuldade em integrar informação sensorial ou forte procura ou evitar comportamentos de estímulos sensoriais, caracterizando problemas de transtornos sensoriais .

C. Sintomas devem estar presentes nos primeiros estágios de desenvolvimento do indivíduo (mas podem se manifestar completamente apenas quando este passar a ser exposto à demandas sociais que excedem suas capacidades, ou serem “escondidos” com o auxílio de estratégias adotadas pelo indivíduo na vida adulta.) .

D. SINTOMAS DEVEM CAUSAR IMPACTOS CLINICAMENTE SIGNIFICATIVOS NO FUNCIONAMENTO SOCIAL, OCUPACIONAL E EM OUTRAS ÁREAS IMPORTANTES DA VIDA DO INDIVÍDUO.

E. Tais distúrbios não são melhor explicados pela presença de um deficit cognitivo ou por um atraso global de desenvolvimento. Mas deficiência intelectual e TEA podem ocorrem ao mesmo tempo (comorbidade).

 

O DSM V também introduziu a classificação por gravidade (leve, moderado, severo), de acordo com o grau de apoio que se faz necessário oferecer ao indivíduo (apoio, apoio substancial, apoio muito substancial). Faz-se claro, portanto, que nenhum indivíduo recebe um diagnóstico de TEA sem que tenha sofrido e sofra consequências “clinicamente significativas” em várias áreas fundamentais de seu funcionamento no mundo, ou sem que se aconselhe a oferta de algum nível de apoio para amenizar essas consequências.

Parte significativa dos problemas de aceitação dos autistas de alto funcionamento está associada aos “déficits persistentes em comunicação social e interação social ao longo de múltiplos contextos”. Se uma pessoa é capaz de se expressar com alguma competência e de tentar entender a si mesmo e aos outros em algum nível, uma expectativa social comum é a de que ela SEJA como todas as outras, toda diferença reduzida a uma questão de escolha ou promoção de mudanças simples.

A principal dificuldade é que, no fim, compreender interações sociais de uma forma eficiente envolve, na maior parte das vezes, recorrer a conhecimento implícito, que ocorre de forma natural e fluida e portanto soa auto-evidente para quem o possui. Isso faz com que seja difícil identificar as informações e habilidades necessárias para interagir socialmente. Imagine-se lendo instruções para montagem de um item (móvel, instrumento ou aparelho) complexo que digam o seguinte:

  • Remova todas as peças da embalagem;
  • Conecte as peças até concluir.

Ou um plano para redução de peso definido do seguinte modo:

  • Coma menos;
  • Exercite-se mais.

O primeiro exemplo é absurdo, dada a complexidade que imaginamos para a tarefa. Precisaríamos de instruções explícitas indicando que peças devem ser conectadas entre si, de que modo e em qual sequência.  O segundo exemplo, por sua vez, ignora a psicologia humana. Muitas pessoas não conseguem seguir programas de redução de peso, mas não por estes serem difíceis de seguir ou por não tê-los entendido, mas por se verem incapazes de realizar as mudanças de estilo de vida necessárias.

Para o indivíduo autista, os déficits de comunicação e interação social são paupáveis, podendo causar estresse, frustração e outras dificuldades. Muitas pessoas parecem duvidar da existência ou da intensidade dessas dificuldades, sendo muitas vezes motivação para zombaria e exposição ao ridículo. A habilidade de se expressar funcionalmente por meio da linguagem, embora extremamente útil, não muda esse fato. Ao contrário, na maior parte das vezes ter inteligência preservada e ter acesso à linguagem torna o indivíduo plenamente consciente de suas diferenças, aumentando as dificuldades psicológicas de sua vida diária e existência em geral.

O indivíduo autista pode estudar psicologia, se auto-examinar em profundidade e adquirir grande conhecimento próprio. Ainda assim, seus padrões de interação social continuarão refletindo nada mais do que suas capacidades e limitações naturais. Alguns até podem não ter problemas para falar em público, ou debater em um ambiente com regras bem claras. Mas interagir informalmente com um outro indivíduo pode parecer mais desafiador, dado o grande número e diversidade de fatores e sutilezas envolvidas. Aqueles que “dominam” esses padrões (nunca em um nível intelectual) podem sequer estar cientes da existência desses. É tão natural quanto o processo de caminhar, que é tão complexo do ponto de vista neurológico. Ao menos para parte de nós, seria lícito olhar algumas das imperfeições exibidas por pessoas “normais” e nos alegrarmos com o fato de sermos capazes de identificar falhas e diferenças em nossos próprios processos mentais.

A experiência acumulada ao longo do tempo pode melhorar a capacidade de interação do indivíduo autista. Entretanto, a exposição ao sarcasmo, comunicação não verbal e outras complexidades ainda terão o potencial de colocá-lo em dúvida quanto às intenções de seus interlocutores. Mesmo que tenha lido exaustivamente e entendido as teorias que tentam explicar a diversidade de comportamentos humanos, o indivíduo autista poderá ter grande dificuldade para aplicar esse conhecimento em suas interações cotidianas.

Muitas pessoas “normais” têm sérias dificuldades para manter relacionamentos ou para superar as próprias resistências à perseguição de objetivos por eles mesmos traçados (redução de peso, aprender novos idiomas, gastar menos, etc.). Que razões fazem a sociedade esperar do indivíduo autista nenhum outro resultado que não a superação completa e inclemente de suas próprias neurologias? Pessoas autistas são, acima de tudo, humanas, e têm direito a exibir as mesmas características e receber os mesmos benefícios das convenções aplicadas à todas as outras pessoas.

 

Anúncios

4 comentários em “Pessoas autistas têm autismo

  1. Não, Pesssoas Autists são Autistas, não tem Autismo. E este artigo é preconceituoso, cheio de equívocos grosseiros, generaliza demais, e pior de tudo, não leva em conta a Neurodiversidade nem os Conhecimentos do Lado de Dentro do Autismo. E ainda por cima tem a pachorra de citar o DSM, o manual inimigo dos Autistas, que espalha preconceito, inolerãncia e visão retrógrada por onde é lido e praticado ! Apenas mais um artigo de Conscientização Negativa do Autismo. Artigo Reprovado !

    1. Cristiano, obrigado por seu comentário. Acho que não tenho muito o que criticar ou discordar dele, exceto no fato de que não acho que se basear nessa aderência total à uma versão extrema do movimento pela neurodiversidade seja realmente benéfica para todos os autistas. Em particular, me incomoda o fato de que o ativismo pela neurodiversidade – assim como todos os outros tipos de ativismo, na verdade – tende a ser anti-científico, o que é profundamente contrário aos interesses dos autistas (assim como de qualquer ser humano). Devemos lutar pela chance de influenciar as prioridades científicas nos assuntos que nos envolvem, não nos fechar para qualquer tipo de pesquisa. Devemos lutar pela aplicação dos mesmos padrões científicos usados em qualquer outra área à pesquisa sobre intervenções terapêuticas para autistas – e não adotarmos padrões frouxos (“porque nossas crianças autistas não podem esperar”), promover intervenções não adequadamente avaliadas (porque se encaixam melhor em nossa mensagem de neurodiversidade) ou desistir totalmente de qualquer tipo de intervenção.

    2. A motivação para escrever esse texto surgiu da frustração de observar meu filho de 5 anos ser tratado pela sociedade (escolas, saúde, família), mais de 30 anos depois, mais ou menos do mesmo modo que eu fui, com suas dificuldades e necessidades específicas sendo negligenciadas (ou mesmo pela sugestão aberta de que devemos “esquecê-las”) por ter ele inteligência preservada, ótimo funcionamento e capacidade de expressão. Daí o foco no autismo ao invés do autista. Talvez lhe agrade mais este outro texto meu.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s