Produtividade e motivação

Este é o terceiro post de uma série com idéias e comentários sobre sistemas de produtividade pessoal.

Na linha do observado no post anterior (“Nenhum Platô”), confesso que sempre me causou estranheza o processo subjacente à maior parte das dicas de produtividade mais populares. Em especial, aquelas destinadas a combater algum comportamento procrastinador. Parece difícil reconhecer como alguém pode ser capaz de – reconhecendo os meandros e mecanismos adotados por sua mente para evitar alguma atividade – criar e colocar em prática com sucesso uma estratégia para “tapear” esse processo. Se o esforço para manter-se consciente desse processo pode ser suficiente para identificar a natureza do problema e divisar uma solução, esta tende a ser puramente teórica – mesmo nas poucas instâncias em que se alcança algum sucesso, este pode ser apenas temporário e parcial, com a mente encontrando outras saídas para fugir da armadilha.

Ao falar sobre truques anti-procrastinação, eu nem pensava diretamente nos exemplos mais simples e comuns de pessoas que caem facilmente em efeitos placebo. Eu tinha em mente exemplos mais sutis, como os de uma comunidade de (aspirantes a) racionalistas (cujo membro médio conta, no mínimo, com uma capacidade de reflexão e de abstração MUITO acima da média) que, corroídos pela akrasia (e por conseguinte incapazes de usar os recursos que cultivam para “salvar o mundo” – e outros objetivos menos altruístas), levantam discussões muito sérias em torno da possibilidade de enganar suas próprias consciências.

A alternativa de procurar um controle externo é boa – na verdade, à primeira vista parece ser a única viável. No entanto, acho que, no geral, muitas pessoas – e, eu em particular – precisariam restringir muito o processo de controle para que se tivesse uma mínima chance de eficácia – mesmo se pensarmos em alguém suficientemente próximo, empático e confiável para exercer o papel central. Frequentemente, como veremos a seguir, a proximidade será, na verdade, um impedimento. O processo teria que envolver principalmente a discussão de objetivos e opções existentes, levantamento de alternativas, oferta de perspectivas diferentes, teste de schedules (e de “arquiteturas” de controle de uma forma mais geral). Portanto, precisaria ser uma parceria mais profunda e isso provavelmente exigiria (além de conhecimento das idiosincrasias do indivíduo – e do histórico de tentativas anteriores, que muitas vezes não está disponível ou ao menos não foi corretamente interpretado pela pessoa) um bom nível de distanciamento emocional. O que eliminaria a condição vantajosa da maior parte das pessoas muito próximas, sendo elas tão diretamente afetadas por essas escolhas e pelos resultados do processo de controle como um todo. Há uma clara tendência à instabilidade e, eventualmente, todo um conjunto de consequências negativas não triviais associadas aos relacionamentos existentes entre o indivíduo e aqueles que o auxiliam no processo de controle.

Um dos “conselhos” universais mais irritantes que conheço nessa área é o de que “a necessidade DEVE ser motivação suficiente”. O que mais me incomoda nisso nem é a grosseira simplificação por trás da visão que a sustenta, mas sua capacidade de autosustentar-se, especialmente diante de problemas em sua aplicação, mesmo em um nível puramente individual, mesmo com pessoas que em absoluto não se identificam com a cultura geral que a cultiva. Não parece existir, mesmo entre os nossos melhores candidatos, uma perspectiva mais geral e aberta o suficiente para acomodar a idéia de que pode existir tanta diversidade neurológica entre as pessoas a ponto de existirem, entre elas, algumas que não seriam motivadas nem mesmo pelos instintos mais primários de sobrevivência. Então, existe a chance de que esse tipo de argumento seja ao menos implicitamente levado à tona em qualquer processo de controle desse tipo – e esse seria o pior cenário (des)motivacional possível.

Talvez uma alternativa a pensar seja a de tentar aproveitar bem as oportunidades que surgirem e que possam servir como triggers motivacionais (externos), gerando pequenos loops de controle (ocultos e involuntários – da parte das outras pessoas envolvidas). No entanto, isso poderia ser muito fragmentado e introduzir incerteza demais no processo motivacional.

Por outro lado, encontrar alguém que possa exercer ativamente tal papel, sob as pesadas restrições acima mencionadas, provavelmente só seria possível no contexto de um grupo de suporte formado por pessoas com mais ou menos as mesmas características, que enfrentam problemas semelhantes e que estão dispostos a tratá-los por meio do mesmo conjunto de ferramentas. Ainda assim, o esforço para descrever as suas condições poderia ser intenso demais para a maioria.

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