Nenhum Platô

Este é o segundo post de uma série [1] sobre sistemas de produtividade pessoal. O primeiro texto está aqui. Em particular, neste faço críticas sobre a viabilidade desses sistemas [2].

A busca por status é o principal propósito da psicologia humana. Essa não seria em si uma afirmação controversa não fosse tão difícil transmitir informações para seus pares – e se esta não admitisse uma solução tão imperfeita: a sinalização. O comportamento dos indivíduos é em grande parte governado pelo desejo de sinalizar os valores ou características que se supõe ou deseja possuir, aumentando a preferência por ações que o senso comum diz estarem correlacionadas com aqueles valores. Assim, a obesidade seria uma forma eficiente de sinalizar “facilidade de acesso a alimentos”, por exemplo. Note que um sinal só transmitirá informação útil (que características valorizadas e incomuns você possui) se a ação incorrer em um custo. Para sinalizar inteligência é preciso demonstrá-la da maneira mais clara possível, o que levará à seleção de tarefas de grande dificuldade: mostrar que está aprendendo um idioma estrangeiro é um bom sinal, mas ainda melhor se for um idioma considerado difícil para nativos do seu idioma, ou se a escolha se der por razões pouco pragmáticas [3].

Otimização

Digamos que você está em terras desconhecidas e deseja encontrar o ponto de maior altitude.

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Se um panorama global da região estivesse disponível, esta seria uma tarefa trivial. No entanto, você não tem um mapa e sua visão do terreno é limitada.

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Uma solução bastante simples e eficiente seria escolher seguir pelo caminho mais íngreme, o que te levaria a algum pico, mas não necessariamente ao mais alto.

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Note que há dois caminhos íngremes possíveis, mas não é possível discernir seus picos antes de optar por um deles. Então você pode começar a escalar uma das elevações e observar mudanças na inclinação da outra no caminho, retornar e fazer o mesmo para a outra elevação. Se você avaliar mais caminhos, aumentará as chances de encontrar o ponto de maior altitude, mas consumirá mais tempo e outros recursos: há aqui um equilíbrio a explorar.

Agora suponha que a altitude corresponda ao grau de dificuldade de uma tarefa e que a variável a ser maximizada seja o status. Uma heurística bastante útil é evitar platôs: no momento em que uma tarefa começar a parecer fácil ela perderá o valor como sinal, ou seja, como instrumento para te diferenciar da maioria de seus pares. Tarefas simples não têm valor como sinal.

Podemos então esperar que o grau de dificuldade das tarefas executadas por um indivíduo não será reduzido ao longo do tempo. Na verdade, é quase certo que ficará o mais alto que for possível ou necessário. A não ser que algum fator – alguma não neurotipicidade, por exemplo – desestabilize seus mecanismos de valorização e busca de status.

Ou nem mesmo assim. Para alguns de nós, a complexidade da tarefa em si é em parte transferida para o próprio sistema de produtividade ou otimização pessoal.

Satisfação pessoal

A única forma eficiente de elevar a sua satisfação pessoal (supondo ser esse o objetivo de adotar um sistema de produtividade) é selecionar um sub-grupo ou sub-cultura em que suas habilidades atuais são valorizadas e isolar-se nele pelo tempo em que os benefícios durarem. Limitar o número de concorrentes é fundamental.

Com o avanço tecnológico, a dificuldade relativa das tarefas que os indivíduos “escolhem” assumir permanece constante, mas os níveis absolutos seguem aumentando.

Além disso, há um problema, mais ou menos bem conhecido, que parece afetar grande parte dos produtos oferecidos pela indústria da auto-ajuda (seja um sistema de produtividade pessoal, terapia cognitivo-comportamental ou uma dieta): para muitas pessoas, depois de um ou dois dias de adaptação, o sistema passa a funcionar muito bem, mas apenas por um tempo limitado, talvez duas semanas. É como se esse período correspondesse ao nosso horizonte de busca, o tempo em que conseguiríamos tolerar um platô. A partir daí racionalizamos alguma dificuldade inerente ao método ou a características pessoais, desistimos e tentamos outra coisa.

Métodos de sucesso seriam aqueles que, sim, funcionam na maioria dos casos, mas apenas de uma forma bastante ineficiente: em especial, sistemas cuja aplicação exige disciplina e força de vontade. Se você não tem essas características, você deve primeiro buscar algum tipo de terapia ou prática para treiná-las ou induzir a sua formação. Muitas vezes, tais práticas, para gerar os resultados esperados, exigem um nível bastante razoável … daquelas mesmas características; tomemos o exemplo da meditação.

Não é que não existam bons sistemas para aprender um idioma difícil, por exemplo, mas métodos populares são aqueles que não conflitam com a busca por status [4]. Apenas nerds com real interesse na tarefa em si (e não em seu potencial de sinalização) não conseguem enxergar isso.

 


[1] Note que já substituí o termo “sequência” por “série”, para refletir o fluxo errático dos temas tratados.

[2] Alerta: a idéia central deste texto não é exatamente minha. Ainda assim, nem mesmo posso citar sua autoria ou lincar o texto original, já que não há mais qualquer vestígio dele, mesmo nos arquivadores. O desejo de resgatar essa idéia foi uma das principais motivações para escolher o tema deste texto, assim como de explorar algumas de suas implicações lógicas.

[3] Por exemplo, para ler o original em grego de uma obra.

[4] Você poderia aprender japonês (quase que) apenas assistindo animes, mas isso significa abandonar o potencial de sinalização de inteligência, sofisticação e disciplina.

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