The Next 100 Years: A Forecast for the 21st Century (George Friedman).

Imagem

 

(Finalmente publico notas pessoais e “resenha” para esse livro já lido há algum tempo.)

A expectativa do autor com o livro é fornecer princípios gerais para fazer previsões de longo prazo (afinal, aqui estamos falando em um horizonte de até 100 anos!) – isto é, princípios válidos não apenas para questões (geo)políticas. Embora sempre apresentados no contexto daquelas questões, tais princípios deveriam ser, a princípio, transferíveis para outros contextos em que uma previsão de longo prazo é também relevante. Em nenhum momento, porém, o autor deixa claro de que modo tal transferência se daria ou porque os princípios que ele levanta são, de fato, gerais o suficiente.

A primeira grande observação de Friedman, um princípio que, a meu ver, não levanta ou não deveria levantar tanta ou alguma controvérsia, é a de que fatores geopolíticos são no mínimo tão e provavelmente mais importantes do que fatores econômicos para o desenrolar dos eventos de importância histórica. Mais do que isso, o autor dá a entender que os últimos são, no mais das vezes, subjugados pelos primeiros, sendo as guerras seu principal elemento definidor. “Wars, when your country isn’t destroyed, stimulate economic growth”. Aqui devo dizer que, embora sempre tenha admirado a Stratfor – e Friedman em particular – por essa visão não idealizada do mundo, pela objetividade de suas análises desapaixonadas, não deixa de causar uma sensação um pouco desconfortável ver um quase “elogio” às guerras, sensação que não consigo aplacar mesmo reconhecendo a maior parte do papel fundamental que o autor confere, às vezes apenas nas entrelinhas, às vezes mais diretamente, a elas. Infelizmente, há algum aspecto moral aqui que me escapa mesmo quando tanto me esforcei para isolar todos eles antes de começar a leitura. De fato, uma guerra pode estimular o crescimento econômico, desde que seu país já seja forte o suficiente e que ela aconteça longe de casa.

Além disso, também me foi difícil concordar (do alto do meu talvez insuficiente conhecimento da história, devo reconhecer) com a afirmação de que a estabilidade e a integração econômica que existia no início do século XX é comparável à que existe agora, me parecendo a última mais intensa e, principalmente, mais “estrutural.” Por exemplo, não me parece mais tão fácil surgir um líder populista e/ou fascista forte em um país de grande potencial humano e econômico (e, portanto, militar), sem atrair uma atenção até mesmo desproporcional do mundo, incluindo retaliações preventivas. (E aqui vale compartilhar uma visão um pouco mais positiva do intervencionismo – ou “imperialismo”, se alguém preferir -, que ainda poderia ser sistemicamente vantajosa em relação à alternativa de não intervenção.) Mas esse tipo de objeção deve ser lugar comum. No entanto, é possível que ambos estejamos errados, os que fazem esse tipo de objeção por achar que a dinâmica dominante por 10, 15 séculos, é agora decisivamente menos importante, mas também ele, por dar um peso menor do que o justo a esses novos fatores.

Friedman continua achando – e não apenas neste livro, porque ele vem falando isso há anos em qualquer entrevista que concede – que a chave do poderio militar americano (que por sua vez é a chave do poderio econômico) é a marinha, sendo a presença dominante nos dois principais oceanos o principal fator a determinar que os Estados Unidos continuarão sendo o principal ator geopolítico global nesse horizonte de 100 anos, apesar do surgimento de novas e até certo ponto “inesperadas” potências mundiais. Obviamente, inesperadas não para Friedman, que seria um dos poucos capazes de enxergar uma lógica com padrões bastante claros e com coragem para aplicá-la em um horizonte de tempo tão longo. (E aqui eu estou sendo apenas parcialmente irônico.) Nesse ponto, o autor faz outra simplificação um tanto temerária, que é a de reduzir o ódio ao “império americano” unicamente ao medo provocado por seu poderio militar ostensivo. A “Guerra ao Terror” teria como objetivo principal impedir a realização do (já improvável) sonho de formação de um novo e unificado império islâmico e, no olhar de Friedman, dará o tom da primeira metade do século XXI, com grupos islâmicos sempre procurando envolver os Estados Unidos em uma grande guerra.

De fato, outra crítica possível ao livro é por ter conteúdo e forma excessivamente americanocêntricas, que, embora natural e compreensível, é às vezes colocada de uma forma que beira o mau gosto. Além disso, Friedman faz diversas simplificações grosseiras para construir uma narrativa com uma linha mais dramática, muito diferente, por exemplo, do teor e do tom dos relatórios com análises oficiais da Stratfor.

Friedman prevê uma nova “guerra fria” com a Rússia (“os russos não podem evitar uma tentativa de recuperar poder”), que daria o tom dos primeiros 20 anos deste século e terminaria mal, mais uma vez, para os russos – uma das previsões menos ousadas do livro, dados os movimentos que já vemos há muitos anos. Friedman também descarta a China como potência mundial, citando seu isolamento físico, baixo poderio naval e instabilidade social, mas ousa ao prever o surgimento de um novo ciclo “maoísta” ainda nesta segunda década, movimento que, ele acha, os Estados Unidos devem tentar frustrar, para confrontar os russos.

As 3 potências que Friedman antecipa o surgimento neste século seriam:

1) Japão, que também “não teria como evitar“, dados o poder econômico e a tradição militarista – e os problemas populacionais e a necessidade de importar trabalhadores estrangeiros, bastante mencionado recentemente, seria uma das vias para esse processo.

2) Turquia, que já tem grande influência em uma região instável e já é forte economica e militarmente.

3) Polônia, dado o declínio que ele prevê para a Alemanha, que perderia dinamismo econômico via problemas populacionais. Seria a Polônia que controlaria o ímpeto russo já nesta década, com auxílio dos Estados Unidos.

Avançando no horizonte de tempo, Friedman prevê uma nova guerra de proporções mundiais para a metade do século, que será alimentada pela interação (dinâmica) entre os fatores construídos e que se tornaram importantes nas primeiras décadas do século XXI. O autor prevê como maior “benefício” do conflito avanços em tecnologias para geração de energia solar: captadores posicionados no espaço com capacidade para “transmitir” de volta à Terra via microondas. Obviamente, deixemos de lado os detalhes da previsão e fiquemos apenas com a dinâmica: surgimento de novas potências e novos fatores com relevância geopolítica conduzindo a uma guerra mundial que tem como sub-produto o desenvolvimento de uma ou um pequeno conjunto de tecnologias que promoverão grande crescimento econômico no pós-guerra. Mas uma previsão importante que o autor faz é o fim do processo de explosão populacional: os países hoje industrializados com perdas populacionais significativas já na metade do século, mesmo os países hoje menos desenvolvidos terão populações estabilizadas até o final do século XXI. Como principal fator subjacente ao século, isso teria consequências sobre todo o sistema produtivo, que passaria a ver um nível real de automação e pesquisas genéticas com o objetivo de aumentar a produtividade média do ser humano. Países hoje já industrializados até o final da primeira metade do século pagariam potenciais imigrantes, que seriam virtualmente alvo de grande concorrência. Um movimento que Friedman cita em particular seria o de mexicanos (mas agora com um país bastante desenvolvido) para os Estados Unidos, que seria um dos principais fatores deflagradores de um longo conflito militar na região, começando por volta de 2080.

O próprio autor deixa claro que não espera ser levado a sério nos detalhes das previsões que faz, que as escolhas específicas foram feitas apenas para ilustrar seu método. No entanto, ainda acho que ele não enfatizou isso o suficiente e que para isso ele poderia ter tentado dar estimativas numéricas para a concretização de cada cenário sugerido, o que seria uma maneira mais eficiente de demonstrar o argumento. Por outro lado, devo reconhecer, mais uma vez, que os detalhes escolhidos – e especialmente as simplificações usadas para gerar uma interpretação – buscaram uma narrativa que fosse mais atraente para um grupo específico de leitores já “convertidos” àquelas interpretações. Isto é, Friedman parece não ter feito o menor esforço para atender, chamar a atenção de um público menos comum a ele, mais rigoroso, cético e que ainda prefere manter um certo distanciamento moral dessa instituição humana que é a guerra.

De um ponto de vista positivo, Friedman tentou dar uma visão mais direta de seu método para fazer previsões de longo prazo, que ele chama simplesmente de geopolítica, que, assim como a economia, parte do pressuposto de que os agentes são racionais, isto é, de que eles conhecem ao menos seus próprios interesses de curto prazo. A partir dessa premissa, os atos de governança refletiriam, na maior parte, a simples execução de um próximo passo lógico e necessário. De fato, o conceito de inevitabilidade está presente em todas as narrativas do livro. Erros cometidos por líderes políticos, quando examinados de perto, raramente se revelariam atos estúpidos, mas sim ações forçadas pelas circunstâncias. Nesse contexto, a geopolítica versaria sobre amplas forças impessoais que restringiriam as ações de seres humanos e de nações como um todo, praticamente as obrigando a agir de formas específicas, dentro de um menu bastante limitado de opções. Naturalmente, outro conceito refletido ao longo de todo livro é o de consequências não intencionais.

Para Friedman, a forma mais prática de imaginar o futuro, em especial no longo prazo e em geopolítica, é questionar as expectativas. De fato, ele tem uma visão de “cisne negro” da história, que seria melhor representada por um modelo de equilíbrio pontuado, com boa parte dos eventos importantes surgindo como produto de forças imprevisíveis, de choques exógenos violentos, de descontinuidades.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s