Não importa quem matou Aaron Swartz

Não me sinto inteiramente confortável para falar de Aaron Swartz  – eu não sabia quase nada sobre ele antes de sua morte. Mas por razões diversas eu me vi obcecado por ele tão logo soube (com um atraso de alguns dias) de sua morte. Embora presente, a tristeza não foi a sensação predominante, mas sim a curiosidade. Mas não curiosidade no sentido estritamente produtivo, já que motivada mais por uma perplexidade. No entanto, mais uma vez, essa perplexidade não estava direcionada o evento em si (o suicídio de um jovem notável e de grandes e muitas realizações), mas sim ao fato de continuarmos vivendo, muitos de nós, apesar da prevalência de um enorme descontentamento com o que fizemos de nossas vidas até aqui e da baixa expectativa de realizações futuras. (E aqui estou me restringindo às pessoas que têm plena consciência de possuírem recursos e potencial não realizado e, talvez, não realizável em qualquer circunstância.) Como falarei um pouco mais adiante, Aaron Swartz pode ter “desperdiçado” parte dos recursos que tinha a disposição, ao, em um dado momento, ter escolhido as ferramentas “erradas” para defender suas idéias, mas esse erro é perfeitamente compreensível e foi mais do que compensado por sua mais importante realização, cujo desfecho trágico representou exatamente o seu clímax.

(Naturalmente, não estou insinuando que essa sequência de eventos – e em especial o seu final – tenha sido ou deva ser arquitetada, com base na sua eficiência superior. É fácil imaginar que essas ações e, especialmente, as suas consequências, pessoais e na sociedade, não tenham sido de modo algum planejadas e previstas por AS, assim como, em geral, não o foram por todas as grandes figuras históricas influentes. Mas o fato é que seu ato mais importante foi o seu sacrifício pessoal, não compartilhado, tenha sido ele voluntário ou não, pensado ou impensado, tenha ele se arrependido ou não. Essas considerações são irrelevantes. Meu objetivo aqui é apenas reconhecer a importância desse ponto, em especial no momento exato em que, dada a proximidade e a natureza da tragédia, tantas emoções estejam borbulhando entre os afetados e interessados. Feitas essas ressalvas – bem como as que ainda farei – não creio que o reconhecimento desse ponto necessariamente impeça que alguém valorize ou se interesse pelas diversas manifestações públicas que se seguiram à tragédia.)

Eu já tive a oportunidade de dizer que não tenho grande crença na eficiência da atividade que chamamos de “ativismo” em alcançar os resultados que seus adeptos tendem a propor e, frequentemente, afirmam alcançar. Para ser franco, não consigo ver de fato uma maneira de promover mudanças sistêmicas a não ser que de uma forma muito gradual e quase “inconsciente,” não diretamente intencional, como um efeito colateral raro. E, com certeza, tais mudanças tenderão a depender amplamente das ações de uma figura (ou um pequeno grupo de personagens) internos à estrutura vigente. De todo modo, isso não é para dizer que não vejo qualquer valor no ativismo, em especial em um contexto em que tão poucos estão aptos a assumir as posições realmente relevantes no processo de mudança. Promover algum nível de participação – mesmo que seja apenas uma ilusão sobre a sua influência pessoal – será frequentemente melhor do que deixar as pessoas sem a menor esperança de controle. No entanto, para que o ativismo ainda seja uma atividade minimamente saudável – ou ao menos neutra na média, considerando todos os seus atores diretos e a sociedade – espera-se que ao menos os seus líderes e idealizadores sejam capazes de desenvolver plena consciência das limitações e responsabilidades envolvidas. O que, convenhamos, é tarefa difícil, em especial se tiver que ser realizada não antes do engajamento, mas dentro da própria estrutura da atividade, como o é muito mais frequente.

Dentre os diversos assuntos em torno dos quais a atividade do “ativismo” costuma se desenvolver/concentrar – existe alguma área ainda intocada? – aquele em que sempre me pareceu existir maior potencial de benefícios reais é o da Internet. Mais importante, esta é onde os erros e simplificações grosseiras que norteiam qualquer movimento ativista parecem ter a menor influência sobre o resultado final – em parte por esse tipo de ativismo girar em torno de uma batalha que, por definição técnica, já nasceu com um final previsível, conhecido, positivo para o lado da liberdade da informação, restando apenas traçar o caminho daqui até o seu desfecho inevitável. Assim, aqui, muito embora o nível intelectual seja, em média, superior ao existente nos movimentos que lidam diretamente com a realidade mais dura da política diária, ainda vemos o uso (estratégico) das mesmas palavras de ordem tão conhecidas e antiquadas, da lógica falha e a promoção de visões de mundo limitadas mas eficazes na mobilização.E Aaron Swartz, aparentemente, não era diferente – basta ver seu manifesto, por exemplo. Não acrescenta informação e recorre a uma estrutura arcaica de argumentos para justificar uma suposta e desejada radicalidade que, no contexto da Internet e da cultura subjacente a ela, não é nada mais que seu estado natural, do qual não é possível divergir por mais do que um curto período de tempo.

O problema, claro, não era inerente à figura de AS. O problema é a retórica, o discurso, a síntese dos argumentos utilizados e os precedentes envolvidos. Independente do modo como ele tratou a questão, o que ele fez ao longo da vida (como ativista) foi significativo o suficiente para que, após o fim trágico, tantas outras figuras notáveis demonstrassem tamanha simpatia por ele e por sua causa. No entanto, o modo como ele e esses eventos e desenvolvimentos forem descritos nos “livros de história” terá uma repercussão muito mais ampla e intensa.

A distribuição de versões eletrônicas de artigos acadêmicos é uma questão muito diferente daquela em torno da cópia e distribuição não autorizada de filmes, por exemplo. A princípio, os autores das publicações de fato não parecem ter, ou ao menos não tiveram até hoje, a intenção explícita de lucrar com o material submetido aos periódicos – de fato, o futuro parece apontar para um sistema em que prevalecerão as publicações por iniciativa dos próprios autores. A distribuição dos direitos nas publicações acadêmicas é uma questão particularmente tenebrosa. Por outro lado, parece no mínimo contestável a afirmação generalista de que a indústria de publicações acadêmicas, como existe hoje, seja majoritariamente danosa ao progresso científico. Além disso, essa indústria se consolidou de forma muito rápida ao longo dos últimos anos, em um período de tempo muito curto para que os autores pudessem pensar nas suas consequências ou instaurar suficientes iniciativas envolvendo periódicos de livre acesso. Essa não é uma questão restrita simplesmente aos direitos de propriedade das informações.

Apesar de ter (eu suponho) a maior parte dos recursos (intelectuais) necessários para avançar de fato na discussão, ele parece ter se perdido nos meandros do ativismo, talvez seduzido por seu impacto mais amplo no curto prazo. Curiosamente, seu ato unilateral mais conhecido, realizado de forma silenciosa, secreta, e pelo qual estava sendo processado, foi sua ação mais importante, com muito maior influência sistêmica e de longo prazo que qualquer manifesto ou discurso. Aqui, é importante reconhecer que esse resultado dependeu de forma fundamental da ação ter sido publicada posteriormente e associada a uma figura pública de boa reputação. Assim como, temo dizer, o seu desfecho trágico. Nesse contexto, eu não me sentiria tão desconfortável ao usar a palavra mártir, ainda que ele o tenha sido apenas em um sentido sistêmico, desindividualizado.

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2 comentários em “Não importa quem matou Aaron Swartz

  1. I’m sorry, I only know English. I found your blog after reading Gwern’s latest book review 😉

    I like your post. You wrote it in January 2013; well-done! You might want to read Encyclopedia Dramatica’s article about Aaron Swartz. It is not fawning. It is full of harsh truths. It is also compassionate.

    1. Sorry for being so late in answering your comment. I haven’t been publishing anything here (or even micromanaging the blog, for that matter). Thanks for your kind words and recommendation. However, now I’m somewhat confused, as I couldn’t find the “link” between any Gwern’s book review and my blog 🙂

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