O viés da mídia e o exemplo da Rússia.

Sobre a cobertura jornalística na mídia mainstream, as pessoas em geral parecem tender às seguintes posições: (1) rejeitar a existência de viés na cobertura jornalística, ou (2) reconhecê-la, mas afirmá-la irrelevante na formação da “opinião pública”, ou ainda (3) categoricamente afirmá-la existente (bradando a todo pulmão!) e essencial na explicação da opinião pública. Mas é curioso como, na média das opiniões que observei até hoje, *não* se oferece qualquer evidência empírica mais consistente ou tentativa de explicação que seja desprovida das emoções associadas a uma filiação ideológica. Mais do que isso, as pessoas parecem não sentir qualquer *necessidade* de fornecê-las, como se fosse algo não apenas evidente como observação, mas também estruturalmente trivial. Com isso, perde-se a oportunidade de analisar uma questão que *é* real, mas que conta com uma rede de influência, causas e motivações muito mais sutis e complexas e com consequências muito mais interessantes do que os media watchers dão a entender.

 

Bem, a minha greve do noticiário geral já dura quase 2 anos e tem sido capaz de satisfazer os critérios e objetivos que a motivou. Mas ela também trouxe, mais recentemente, alguns efeitos inesperados, a partir do momento em que a desintoxicação foi concluída. Como exercício, decidi relaxá-la temporariamente e estou há 2 semanas acompanhando o noticiário vindo da Rússia, via mídia local e mídia estrangeira (basicamente, ocidental). Há um corpo interessante de russos vivendo no exterior que mantêm blogs com opiniões e análises de atualidades russas. Em suma, a mídia ocidental não gosta do presidente Putin e não apenas por seu estilo truculento e semi-autoritário. Esses motivos não são de todo questionáveis e temos muitos outros exemplos de líderes “antipáticos”. Gostemos ou não, existe implicitamente uma cartilha para regimes democráticos que se espera ver seguida em seus pormenores e uma das principais atividades jornalísticas parece ser a de monitorar questões relacionadas a essas atividades. O problema, na verdade, é que isso parece estar sendo feito de um modo muito superficial e emocionalmente carregado na identificação negativa. “Olha, o Putin tem um comportamento estranho e não parece dar muita bola pra nossa cartilha – ou mesmo pros nossos chiados. Como é difícil prestar atenção em todos os detalhes e tentar ver por trás das ações dele, melhor apenas supor que ele *deve* estar errado.” E em grande parte, me parece ser isso. Note que isso não o isenta de ter alguns de seus atos julgados do ponto de vista moral ou ético. O problema é a tentativa da mídia ocidental de classificar qualquer fato como uma evidência adicional do perfil político simplista que ela criou – alguns eventos se encaixariam, muitos outros não (e, ademais, esse perfil sequer é aplicável!). Sim, Putin pode ser um grande problema para a Rússia, agora ou em algum tempo, mas certamente não o será pelos motivos que vocês preferem apontar.

 

Alguns pontos rápidos:

 

1) a corrupção na Rússia é um problema, mas parece ser *muito* inferior ao que tem sido alertado (especialmente se comparada, por exemplo, à vizinha Ucrânia);

 

2) os números de crescimento e estabilidade econômica são consistentes; aqui, a mídia ocidental tende a argumentar que a Rússia está bem *apesar* de Putin; eu não teria tanta certeza e no momento ainda ficaria indeciso entre essa opção ou a de que Putin tem um papel importante (talvez fundamental) nisso; ademais, existe um argumento de que o capital humano na Rússia é exuberante (e qualquer pessoa observadora irá concordar) e capaz de compensar diversos desvios;

 

3) ao prestar um pouco de atenção aos líderes da oposição russa, fica difícil argumentar que o país estaria em melhor situação na mão de algum deles – e não apenas do ponto de vista econômico (obviamente não), mas também sob uma perspectiva ética e moral; (aliás, um comentário semelhante talvez pudesse ser estendido a vários outros países com presidentes que não gostamos, inclusive todos os que foram varridos pela Primavera Árabe – e não vejo uma maneira simples de conciliar as coisas aqui: talvez seja mesmo necessário passar com estoicismo pelas mãos de completos canalhas e facínoras, democraticamente alçados ao poder, antes de chegar a “dias melhores”;) 

 

4) ainda não tenho uma opinião sobre o eventual impacto negativo diretamente infligido sobre a Rússia por essa cobertura jornalística na mídia ocidental – talvez isso seja em grande parte efeitos de curtíssimo prazo, concentrados demais em torno de eventos de grande escala, como as eleições presidenciais e talvez também aqui o papel do capital humano seja um importante elemento dissipador; de fato, essa tem sido uma tendência entre os russos radicados no exterior que acompanham a cobertura.

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