Autismo: audiência pública na CMBH.

Audiência pública realizada ontem na Câmara Municipal de Belo Horizonte (Comissão de Saúde e Saneamento), sobre o atendimento público de saúde para autistas.

A única observação relevante que posso fazer é sobre o modus operandi tradicional do poder público, que vimos mais uma vez – embora sem surpresa alguma -, desta vez refletidos nas declarações dos representantes da Secretaria de Saúde da PBH.

Há uma série de “avanços” realizados pela administração atual, especialmente uma expansão “vertiginosa” da rede de atenção à saúde mental. Essa expansão, no entanto, é apenas quantitativa, e ainda assim existe um nível significativo de maquiagem aplicado ao números divulgados. Supostamente, há ao menos um psicólogo em cada um dos 147 centros de saúde da cidade. Mas sabemos que esses psicólogos têm baixíssima disponibilidade de atendimento, porque um único profissional é compartilhado por diversos centros de saúde, às vezes cobrindo mais de uma regional. Outro aspecto é que esse psicólogo é obrigado a atender todo tipo de caso que a ele se aplique, independente de sua formação e experiência. A capacitação dessas pessoas também é francamente contestável. Que tipo de profissional seria atraído por um cargo que oferece essas condições de trabalho um nível salarial insuficiente?

Supostamente, todas as regionais contam com uma equipe multidisciplinar (ou Equipe Complementar) de atendimento terapêutico à saúde mental. Mais uma vez, há o problema do número insuficiente de profissionais e, consequentemente, da baixíssima frequência de atendimentos que eles podem oferecer a cada paciente. Um mesmo terapeuta é obrigado a varrer diversos centros de saúde e regionais ao longo da semana, atendendo um número absurdamente alto de pessoas. Sem qualquer qualificação para isso, precisam lidar da maneira que podem (criativamente?) com uma grande diversidade de casos. Também não é verdade que cada equipe complementar possui um psiquiatra INFANTIL.

Ao ver a reação de surpresa aparentemente sincera que representantes da prefeitura invariavelmente fazem ao ouvir relatos de usuários sobre o não funcionamento da rede municipal de saúde eu só posso pensar em duas possibilidades não mutuamente exclusivas.

1) Eles estão sendo ENGANADOS pelos gerentes dos centros de saúde e pelos gerentes regionais de saúde, que falsificam dados sobre desempenho.

2) Eles estão indevidamente tomando como equivalentes “não existência de demanda FORMAL” e “inexistência de problemas”.

É absurdo achar que “abrir as portas” é o melhor a fazer. A MAIOR PARTE das pessoas nesta cidade sequer tem CONSCIÊNCIA de suas próprias necessidades. A maior parte das pessoas nesta cidade parece achar “feio” reclamar ou o fazem entre si mas não tem a menor disposição em usar os meios adequados para formalizar suas demandas. A maior parte das pessoas nesta cidade parece até se orgulhar de seu estoicismo e de sua capacidade de “aguentar o peso que lhes foi colocado nas costas”.

É desse quadro patético que as administrações municipal e estadual têm se aproveitado para, ciclo após ciclo, construir níveis estratosféricos de popularidade e aprovação, sempre no topo do ranking entre as capitais e estados brasileiros.

Se a Prefeitura de Belo Horizonte usará como avaliação de seu desempenho apenas os níveis de (in)satisfação percebida pela população então não teremos mais o que fazer. Será melhor pegarmos nossas pastinhas e irmos para casa e nossos trabalhos, cuidar de nossas vidas individuais. Me desculpem os que se orgulham de Belo Horizonte, mas, dada essa maneira de pensar da média da população, não existe o menor motivo para isso. E é exatamente quando vocês batem no peito e bradam o orgulho de ser belohorizontino que nossos administradores, sentindo-se irmanados nessa mesma paixão, comemoram e divulgam os números de nosso avanço. Números que nunca são interpretados. Amigos, esta cidade não resiste a 10 segundos de comparação REAL com qualquer outra capital da região sudeste. Portanto, se vocês gostam de Belo Horizonte, não demonstrem isso da forma que tem sido feito até agora. Não vistam camisetas que manifestam essa paixão de forma tão acéfala. Amem BH “repudiando” os seus administradores por não permitirem que a cidade desenvolva seu potencial. Repudie nossos administradores por tentarem nos convencer do contrário e por chafurdarem nessa mindframe nefasta do mineiro médio. Não permita que nossos administradores comemorem avanços numéricos contestáveis. Estimule nossos concidadãos a conhecerem realidades diferentes da nossa, em outros estados e cidades. Estimule-os a olhar nossa realidade ao menos um pouco abaixo da superfície.

E não há maneira de mudar isso por meio do voto. Nossa cidadania não é para ser exercida apertando um botão idiota no dia do deboche da democracia. O voto é um ato extremamente imperfeito, porque a maior parte das variáveis relevantes não pode ser observada de forma objetiva pelo eleitor. Nossa cidadania é para ser exercida no dia a dia, com vigilância incansável. Não há outra maneira de mudar a dinâmica subjacente ao sistema político. Não será um Câmara de Vereadores formada por 30 Leonardos Mattos que poderá mudar isso. Dada a rede de incentivos existente, não há razão para que uma casa legislativa vote contrariamente aos interesses do executivo. Apenas nós podemos mudar as regras do jogo. Será preciso bater incessantemente nas portas dos vereadores, secretários municipais e prefeito. Não podemos permitir que eles respirem*. Será preciso fazer “cara feia” para todos eles, mesmo para aqueles que parecem demonstrar sensibilidade às nossas questões. Esse nunca foi um problema de sensibilidade. Não podemos esperar por políticos éticos. Não podemos depender da ética.

No dia em que isso se tornar a prática padrão, poderemos colocar as eleições em modo automático, a cargo de um sistema que selecionaria nossos representantes de forma aleatória. Se esse sistema gerasse uma Câmara Municipal formada por 30 furões, ainda assim veríamos políticas públicas eficientes sendo implementadas.

*E não falo de manifestações de rua que dão um nó no trânsito da cidade (aparentemente, 5 pessoas bastariam para provocar o caos). Não falo de ir às ruas mostrar nossas nádegas. Novas formas muito eficientes de manifestação surgem a cada dia – as redes sociais são apenas uma delas.

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Um comentário sobre “Autismo: audiência pública na CMBH.

  1. Criticar Belo Horizonte

    Que belo título para um blog.Desculpe-nos a demora em publicar o relato em nosso twitter. Mas está lá, publicado.Um abraço e sucesso para você.Conte com a gente.

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