Never Say Die

Já leram este artigo da edição de outubro passado (2008) da Scientific American?

O assunto é a concepção da morte em si, da não-existência pura. Vouprimeiro à minha visão anterior (que agora julgo mais ou menosenriquecida com as idéias apresentadas no artigo). Eu sempre tive pormim que a religiosidade é o nosso modo default, evoluído em nossoscérebros por uma razão puramente prática, particularmente útil paranossos antepassados. Eu tentaria ser mais amplo e diria que o nossomodo default não envolve a aplicação extensiva e sufocante deracionalidade pura e ceticismo na maior parte das situações que nosenvolvem. Naturalmente, embora talvez seja (ou ao menos tenha sido)”positiva” em um nível individual, sua institucionalização temresultado em coisas nem sempre agradáveis (sendo extremamente gentil).Alguns, no entanto, podem nascer sem essa capacidade para a féhard-wired em seus cérebros e ir aos poucos rejeitando eventualdoutrinação e outras influências culturais (meu caso); outros podemadquirir essa “maldição” ao longo da vida, talvez a partir de um grandeepisódio traumático, seja físico ou emocional (uma perda familiar, umtumor cerebral, A convulsão, whatever). Ou o contrário. E há relatosmuito claros e numerosos de pessoas céticas que passaram a narrar, atéobcecadamente, intensas experiências religiosas após derrame cerebral,por exemplo. A conexão entre alguns tipos de epilepsia e experiênciasreligiosas está estabelecida na literatura, outro exemplo. Nossoscérebros não são estáticos, e talvez alguns de vocês só migrem doateísmo forte para alguma outra posição caso passem por alguma situaçãotraumatizante; ou nem assim. O que estou dizendo é que, tornar-se ateua partir do puro raciocínio e argumentação lógica, independente da”predisposição” do seu cérebro, digamos assim, deve ser muito difícil eraro.

A proposta do autor do artigo, Jesse Bering, para explicar porque étão difícil concebermos a morte, é simples, e vem por meio de algo queele chama de “simulation constraint hypothesis“: ao tentarmos imaginaro que significa estar morto fazemos uso da único ferramenta que temos àdisposição para tal tipo de experimento mental, ou seja, todo o nossohistórico de experiências conscientes. Como nunca estivemosconscientemente inconscientes, mesmo nossas melhores simulações do puronada são suficientes. Note que os sonhos vívidos não contam aqui, jáque o vazio da inconsciência não pode ser experimentado de fato.Significa que sua própria mortalidade não é falsificável do seu pontode vista, e assim mesmo os “extintivistas” exibem uma curiosa forma decrença na imortalidade, de permanência eterna no nada ao mesmo tempo emque procuramos alguma forma indireta de “deixar algo para posteridade”(passando adiante nossos genes, escrevendo um livro, etc.).

Se a hipótese de Bering, de que a imortalidade psicológica nos épara todos um modo natural e intuitivo de pensar sobre a morte, éfalsificável, a idéia de que a crença no pós-morte é resultadoexclusivo de influência culturais e doutrinação religiosa não: váriosexperimentos acadêmicos com crianças apontam para uma tendência deredução da importância dessas crenças ao longo do tempo (quandoracionalmente esperaríamos que, com um maior tempo de exposição àdoutrinação — e ao conceito de vida pós-morte em particular — criançasmais velhas mantivessem ou elevassem a importância dessa crença em suasvidas).

O autor também argumenta que, de uma perspectiva puramenteevolucionária, uma teoria coerente sobre a morte psicológica sequer énecessária: basta que compreendamos que um cadáver não pode levantar-see colocar sua vida em risco. Entender a morte psicológica não aumentanossas chances de sobrevivência, e portanto é evolucionariamentedesnecessário. Interessantemente, Bering, atribui à exposição aoconceito de vida pós-morte a importante tarefa de enriquecer e elaboraresse estado cognitivo natural. Ele reconhece que sua teoria nãoexplica, no entanto, a visão fantasticamente irracional da maioria daspessoas de que na vida pós-morte a alma se desprende do seu receptáculofísico e flutua como um balão em direção à eternidade; reconhece tambémque, desde nossa mais tenra infância, aprendemos que as pessoas nãodeixam de existir simplesmente porque não as vemos, e que esse tipo”offline social awareness” nos faz assumir tacitamente que as pessoasque conhecemos estão sempre em algum lugar, fazendo alguma coisa.

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