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Uma teoria das idéias excêntricas

Selon Wikipedia:

Crank magnetism is a term popularized by physiologist and blogger Mark Hoofnagle to describe the propensity of cranks to hold multiple irrational, unsupported or ludicrous beliefs that are often unrelated to one another. Crank magnetism may be considered to operate wherever a single person propounds a number of unrelated denialist conjectures, poorly supported conspiracy theories, or pseudoscientific claims.

[…] virtually universal characteristics of cranks include:

1. Cranks overestimate their own knowledge and ability, and underestimate that of acknowledged experts.
2. Cranks insist that their alleged discoveries are urgently important.
3. Cranks rarely, if ever, acknowledge any error, no matter how trivial.
4. Cranks love to talk about their own beliefs, often in inappropriate social situations, but they tend to be bad listeners, being uninterested in anyone else’s experience or opinions.

É desse modo possível formular três Axiomas da Excentricidade Ortodoxa:

Axioma da Não Autoridade (ANA): a aceitação de uma crença não é/não deve ser influenciada pelo número ou pelo poder político de seus proponentes.

Axioma da Lealdade (AL): revisar uma crença é o mesmo que traí-la.

Axioma da Propaganda (AP): a única razão válida para falar sobre uma crença é ter como objetivo convencer os interlocutores a adotá-la.

A aceitação de todos os três axiomas dá origem ao “excêntrico clássico”. A aceitação de ANA e AL, em particular, conduz naturalmente à visão de que quase todo consenso científico na verdade reflete algum tipo de conspiração. Ou seja, de que o consenso foi construído para facilitar o recrutamento de novos membros para um grupo com objetivos comuns. O que pode ser alcançado convencendo o maior número possível de pessoas sobre a veracidade da crença apresentada, em especial suas consequências e as previsões que permite fazer. O modo como a adoção desse crença deve orientar as decisões individuais e coletivas, incluindo as recomendações de políticas públicas dela derivadas.

A partir desses Axiomas da Excentricidade Ortodoxa podemos derivar versões mais gerais (do mesmo modo que podemos derivar geometrias não-euclidianas abandonando o “Postulado das Paralelas”). Entre outras coisas, ficará claro que os axiomas AL e AP não são equivalentes.

Nós poderíamos relaxar o Axioma da Não-Autoridade. Para isso bastaria, por exemplo, levar em consideração o conceito de evidência (no sentido bayesiano) e o Teorema de Concordância de Aumann: agentes bayesianos adaptativos e interagentes, com os mesmos priors, sempre irão convergir. Então, assumindo que cientistas/pesquisadores estão de fato buscando a verdade, a maioria deles convergiria para uma posição consensual e a existência de posições majoritárias poderia ser tomada como evidência suficiente para a existência de uma crença real. Essa não seria, no entanto, uma rejeição completa deste axioma, já que poderiam existir outras explicações para a existência de um consenso. O abandono de ANA resultaria em uma Religião Ortodoxa com Doutrinas Oficiais.

Alternativamente, podemos abandonar o Axioma da Lealdade, mas manter o Axioma da Propaganda, resultando no Sofismo: a idéia de que devemos convencer os outros, independente dos argumentos ou recursos necessários para esse fim. Por exemplo, incluindo a possibilidade de contradição ou de mudar uma crença. Desse modo, vemos que AL e AP de fato não são equivalentes. Por outro lado, se abandonarmos ambos axiomas, derivamos o Pós-modernismo clássico.

No entanto, existe no Pós-modernismo uma possibilidade adicional e interessante a explorar. Se a maioria das pessoas aceita AP, é possível argumentar de uma maneira que o viola apenas não abertamente. Do que podemos derivar um quarto axioma:

Axioma da Trollagem (AT): o propósito de discutir uma crença é entreter a si mesmo e/ou a outros.

Se agora aceitamos AT (no lugar de AP), mas ainda rejeitamos AL, derivamos o Discordianismo: crenças são ferramentas que usamos para nos divertir e/ou nos “iluminar”, podendo ser livremente manipuladas.

Como está escrito no Principia Discordia:

Grande Pateta: Éris é verdade?
Mal-2: Tudo é verdade.
GP: Mesmo coisas falsas?
M2: Mesmo coisas falsas são verdade.
GP: E como pode ser isso?”
M2: Eu não sei cara, eu não fiz isso.

Mas uma rejeição completa de AL (não ter qualquer tipo de compromisso com alguma crença) pode parecer muito radical. Talvez exista um equilíbrio, uma versão em que podemos substituir os motivos que nos levaram de AP para AT. Aqui propomos um quinto axioma:

Axioma da Pureza Ritualística (APR): revisar uma crença é torná-la “impura” e inadequada à prática ritualística.

Podemos interpretar APR como uma tentativa de respeitar o ideal arquetípico de uma crença, que só poderia ser alterada de maneiras específicas. Podemos “desconstruir” uma crença desde que mantenhamos sua essência, as motivações centrais para sua existência e manutenção. No entanto, uma crença revisada (ou “desconstruída”) não é em si apta ao uso ritualístico, cuja prática também precisa ser reconstruída (mais uma vez, mantidos motivação e contextos originais).

Seria esse o domínio do Excêntrico Reformado, consciente de sua natureza e posição.

Segundo a Mitologia Discordiana acreditar que apenas algumas crenças são verdadeiras é resultado da Ilusão Anerística (aparente ordem). De modo similar, acreditar que apenas alguns métodos para descobrir a verdade são verdadeiros seria resultado de uma Ilusão Meta-Anerística. No entanto, daí concluir que todas as crenças são falsas derivaria de uma Ilusão Erística (aparente desordem) e, do mesmo modo, concluir que todas as crenças são atos de sinalização derivaria de uma Ilusão Meta-Erística.

O Excêntrico Reformado, consciente dessa dinâmica, respeita a integridade das crenças, ao mesmo tempo em que é transparente na sua concepção de que são todas elas construções arbitrárias, não necessariamente refletindo a realidade. Todas as crenças seriam crenças excêntricas. Excêntricos competentes apenas seriam honestos em relação a isso.

Bryan Burrough’s Days of Rage

The following is a relatively long collection of quotes from the recent David Hines‘ Status 451 post on Bryan Burrough’s book “Days of Rage”.
days_of_rage
“People have completely forgotten that in 1972 we had over nineteen hundred domestic bombings in the United States.” — Max Noel, FBI (ret.)
Recently, I had my head torn off by a book: Bryan Burrough’s Days of Rage, about the 1970s underground. It’s the most important book I’ve read in a year.
Days of Rage is important, because this stuff is forgotten and it shouldn’t be.”
“This is the difference between the hard Left & hard Right: you can be a violent leftist radical and go on to live a pretty kickass life. This is especially true if you’re a leftist of the credentialed class: Ph.D. or J.D.
The big three takeaways for me about Weatherman, when it comes to political violence in America as we might see it in 2016:
Radicalism can come from anywhere. The Weathermen weren’t oppressed, or poor, or anything like that. They were hard leftists. That’s it.
Sustained political violence is dependent on the willing cooperation of admirers and accomplices. The Left has these. The Right does not.
Not a violent issue, but a political one: ethnic issues involving access to power can both empower and derail radical movements.”
“Jackson wasn’t the only black radical of the period to meet a violent end. The contrast in the fates of 70’s black radicals and white radicals is pretty stark. A lot of white radicals came out okay. A lot of black radicals came out dead.
But Angela Davis did great. She’s had a successful career and remains celebrated. Arrested for her part in Jonathan’s plot, Davis was acquitted, and became a radical icon.
I think an underappreciated factor in Angela Davis doing so well afterward is her position as part of the credentialed class. Like the Weathermen — and unlike most black radicals — Angela Davis had access to Institutions.
Institutions are one of two major assets that the Left has and the Right lacks. The other is Shock Troops.
Institutions are organizations the Left controls that operate for the benefit of the Left’s people. The Right doesn’t really have these. As an example, there are occasional hard right lawyers, but so far as I know there is no such thing as the Reactionary Lawyers’ Guild.
The other thing that the Left has that the Right doesn’t are Shock Troops: unshameable actors.
Institutions and Shock Troops are important resources for the Left. They work together. The Left’s Institutions accept, cater to, train, and/or employ its people, including Shock Troops. And, in the cases of several Weathermen (and Davis), give them cushy jobs in their Shock-Troop retirement.
What happens when you have Shock Troops, but no, or few, or short-lived Institutions? That’s the story of black radicalism in the USA.”
“Weatherman had tried to rally the working class. No luck. They weren’t into being radicalized. But black prisoners really, really were.
And white radicals — many the kind who’d be really into privilege confession today — started getting into the idea of black leadership. I mean: really into the idea of black leadership. To the point of fetishizing it. Fetishizing black convicts, especially.
In 1972, a group called Venceremos, from the Bay Area, literally broke out a black convict named Ronald Beaty during a prison transport so he could train them in guerrilla tactics and lead a revolution.
That was their actual plan. That was their entire actual plan.
Exactly that one bit from South Park, but a bunch of ’70s white Bay Area radicals going, “Token, you’re black; you know guerrilla tactics.” (Spoiler: when Beaty got arrested again, he promptly rolled over on the white radicals.)”
“But because I keep coming back to the power of Institutions to shelter leftist radicals, to close our time with the Family: Kathy Boudin, accomplice and facilitator to multiple murders, was paroled in 2003.
She is now an adjunct professor at Columbia University’s school of social work.
So, looking at the BLA, SLA, the Family, wth a detour to NWLF — what do we learn about political violence? Looking, in particular, through the lens of our the concepts of Institutions and Shock Troops, and why these matter:
Institutions are crucial to the longevity of organized campaigns of political violence by Shock Troops.
Shock Troops that don’t have Institutions fare worse and have shorter careers than Shock Troops that do.
Shock Troops without support from Institutions tend to turn to crime, often violent crime, for money.
Doing violent crime to raise money eventually bites Shock Troops in the ass.
The bigger a Shock Troop army, the more financial support it needs, whether from an Institution or from criminal activity.
The Shock Troops that succeed without Institutions have as few members as possible & avoid violent crime (the NWLF guy didn’t do robbery; he grew tons of reportedly amazing weed), and keep a low profile outside of their Shock Troop actions.
Having an Institution is no guarantee of keeping it; Institutions can be attacked by adversaries or other outside forces (see: Lincoln Detox).
All of which is to say: in some respects, a resurgence of political violence in the United States would look similar to previous versions — but in others, it’d look very different.”
“What does it mean for us? First, let’s be blunt: most political violence is not going to be as well-trained & highly disciplined as FALN. You’re not going to see that level of skill again, unless the Cubans decide they want to come to play. What you might see, on both sides, is what to me is the most amazing part of the FALN story: its parasitization of the Episcopal Church.
Organizations don’t have to fully capture institutions. They can latch onto them, and come to be seen as limbs. One person in a position to hire effectively suborned the Episcopal Church to give violent radicals jobs, stability, and even protection. As with everything, the Left will be much better at this kind of operation than the Right will. But the Right might do it on occasion.
The other takeaway: again, Lefty radicals have more opportunities and more acceptance from their mainstream than Righty ones. I don’t see Eric Rudolph getting clemency, no matter the administration. He shouldn’t. Nor should have FALN.”
“I am afraid that the United States is in for political violence in 2017. It could be as bad as or worse than the 1970s. I have some ideas as to what some of it may look like. It really isn’t pleasant to think about.
Political violence is like war, like violence in general: people have a fantasy about how it works. This is the fantasy of how violence works: you smite your enemies in a grand and glorious cleansing because of course you’re better.
Grand and glorious smiting isn’t actually how violence works. I’ve worked a few places that have had serious political violence. And I’m not sure how to really describe it so people get it.
This is a stupid comparison, but here: imagine that one day Godzilla walks through your town.
The next day, he does it again.
And he keeps doing it. Some days he steps on more people than others. That’s it. That’s all he does: trudging through your town, back and forth. Your town’s not your town now; it’s The Godzilla Trudging Zone.
That’s kind of what it’s like.”
“Let’s not mince words: the United States of America is currently engaged in a cold Civil War.
In North Carolina, the Republican governor lost re-election, so the Republican legislature convened a special session to limit powers of the post. Democrats nationwide howled with justified outrage; as we all know, legislators who dislike a governor should flee the state to block quorum, facilitate occupation of government buildings by mobs, and have allies execute secret raids on homes on the governor’s supporters. All of those are things that the Democrats did to oppose a Republican governor in Wisconsin, and the Democrats were pretty cool with it.
This isn’t a cutesy “both sides” argument. Nor am I calling out the press for bias, or politicians for hypocrisy (that’s later).”

Abandonando toda música

branca

É claro que me senti estranho escrevendo este texto. Afinal, me sinto tentado (“racionalmente”) a assumir uma posição desconfortável, compartilhada apenas por certos tipos de fundamentalismos cristãos (puritanismo) e muçulmanos (Taliban).

Minha posição é, de fato, radical: Música é como um parasita. Naturalmente, não tenho qualquer motivação “espiritual” ou “religiosa” pra chegar à essa conclusão (muito ao contrário), nem tampouco estou tentando defender o ascetismo. O argumento central deriva da Memética e de uma análise custo-benefício simples. Em princípio, este é bastante próximo de vários argumentos já usados por diferentes correntes ateístas para rejeitar as religiões.

Por “abandonar toda música” quero dizer algo em um sentido próximo ao que “deixar de acreditar em Deus” implica em “tornar-se ateu.” Isso é diferente de “não gostar de música” ou não conseguir apreciá-la (por alguma característica física, por exemplo). Pra ser sincero, como a maioria das pessoas, eu gosto muito de música – e ainda assim me dei ao trabalho de escrever um texto tentando denunciar eventuais consequências negativas.

Estou tomando como premissa o conceito de que música é um memeplexo (isto é, um grupo de memes que se apoiam e reforçam mutuamente) – do mesmo modo que as religiões e a linguagem – e portanto se comporta como um replicador e está sujeita à processos evolutivos similares aos biológicos (darwinismo universal).

Eu não vou fornecer argumentos pra defender diretamente a posição “a vida sem música é uma vida melhor”, mas apenas questionar alguns argumentos mais comuns usados para justificar ou explicar a importância da música para humanos(1).

Quem faz uma afirmação substancial (por exemplo, “a música é fundamental para o bem estar humano”) é que precisa apresentar argumentos e evidências. Para defender uma posição de ceticismo, basta atacar as evidências que os proponentes da afirmação apresentam (não é necessário fornecer uma prova de impossibilidade). Essa é a mesma lógica usada no ateísmo.

Argumentos favoráveis

História

Seres humanos têm produzido música por (ao menos) milhares de anos (talvez milhões) – nossos cérebros evoluíram para encorajar esse comportamento ou preferência.

Essa é uma falácia, já que o “argumento” oferece apenas uma descrição do que foi observado e não tem suficiente poder normativo. A evolução também nos deu grande capacidade para matar, por exemplo. É preciso fornecer evidências para benefícios reais e presentes na atualidade.

Integração social

Sociedades humanas têm se unido, entre outras coisas, em torno da música. A produção e a apreciação musical são atividades coletivas. A música é parte importante da identidade das pessoas e é uma das razões pelas quais as sociedades humanas são tão estáveis e produtivas.

Este é, provavelmente, o argumento favorável mais forte. De fato, a música oferece um mecanismo de coesão social muito eficiente e é mesmo possível que a sociedade como a conhecemos não fosse funcional sem ela. Mas note que podemos dizer o mesmo das religiões: não existe sequer um exemplo histórico de salto civilizacional importante que não tenha contado com grande apoio de crenças religiosas. Essa observação, no entanto, não confere qualquer veracidade à essas crenças (apenas conveniência). Além disso, a própria conveniência ou necessidade no passado não determina a sua importância para o futuro.

Prazer

Humanos sentem grande prazer produzindo e consumindo música. Ela evoca uma grande variedade de emoções, ajuda a dar significado à vida.

Na verdade, nós não gostamos de música por causa de seus benefícios, mas porque ela é feita para ser agradável (e nos modificou no processo). Ela age sobre nosso sistema de recompensa cerebral e sobre nossos mecanismos de resposta à diversas emoções, de modo a manter a sua importância. Mentes entediadas têm maior potencial de propagação, então qualquer música de sucesso vai incluir seleção para essa propriedade. Isso soa óbvio para qualquer observador externo, mas, como com qualquer tipo de relação de dependência química, não para os afetados pelo vício.

Além disso, dizer que “prazer” em si mesmo é algo bom (ou valor terminal) é no mínimo tautológico. Seria difícil sustentar esse argumento sem levá-lo à sua extensão lógica: estimulação direta do sistema de recompensa cerebral, com eletrodos e tal (o que mesmo alguns hedonistas parecem evitar defender).

 

Moralidade

A música é capaz de influenciar nosso comportamento moral. Expor uma criança à seleção musical ‘correta’ irá forjar o seu caráter de uma maneira positiva.

Essa é uma afirmação relativamente forte, em especial porque não parece ter qualquer evidência a seu favor. Até onde sei, não existe nenhum estudo que apresente uma ligação substancial entre (ausência de) educação musical e criminalidade.

Por outro lado, a associação entre música e alguns tipos de doutrinação é bem estabelecida. A maioria dos cultos, religiões ou manifestações ideológicas em geral explora o impacto emocional da música para promover coesão de grupo ou mesmo a agressividade para com grupos rivais.

Atividade econômica

A indústria musical gera grande riqueza, emprega um grande contingente de trabalhadores e movimenta a economia como um todo.

Assim como a cocaína.

Simbiose benéfica

Música é útil: aumenta nossa capacidade de identificar padrões, ajuda a aprender idiomas, auxilia o tratamento de transtornos mentais, facilita o acesso a outros memes (úteis). Crianças que aprendem a tocar instrumentos musicais em geral melhoram o desempenho escolar.

Obviamente, esse argumento não passa de uma racionalização. Mas vamos a ele mesmo assim.

Ao contrário do que a maioria deve imaginar, não existe “uma vasta literatura” com evidências de apoio a qualquer uma dessas afirmações. A afirmação menos controversa parece ser a da utilidade para aprender idiomas estrangeiros – e mesmo assim as evidências coletadas até o momento ainda estão longe de serem conclusivas.

Mas usar música para esses fins vale o seu preço? Somos mesmo capazes de limitar seus impactos negativos, suas consequências inesperadas? As propriedades que tornam a música tão eficiente como meio para alcançar algumas finalidades positivas são exatamente as mesmas denunciadas ao longo do texto. Ao invés de usar música para alcançar pequenos benefícios na escola ou em outros contextos, talvez devêssemos usar o tempo para ler mais livros ou desenvolver o pensamento crítico. É possível que atacar o problema diretamente seja mais eficiente do que recorrer a uma sinergia simbiótica.

Há quem diga que a música teria sido uma das grandes forças propulsoras do desenvolvimento do cérebro humano. Eram necessárias máquinas meméticas mais potentes para espalhar música pelo ecossistema, então fomos selecionados para esse fim. Do nosso ponto de vista, é claro que esse foi um desenvolvimento positivo: o cérebro é uma máquina memética universal (não especializada em um meme em particular), então qualquer outro tipo de meme útil também foi beneficiado. No entanto, talvez seja adequado reverter o controle agora. Talvez não seja mais necessário manter qualquer tipo de afiliação com a música e devamos usar os recursos liberados para outros fins!

O uso psicoterapêutico da música, porém, parece justificar-se – em parte porque as alternativas existentes hoje não são boas. No entanto, este é um caso de oferta de tratamento para transtornos mentais, não de uso recreativo.

Espiritualidade

Entweder durch den Einfluss des narkotischen Getränkes, von dem alle ursprünglichen Menschen und Völker in Hymnen sprechen, oder bei dem gewaltigen, die ganze Natur lustvoll durchdringenden Nahen des Frühlings erwachen jene dionysischen Regungen, in deren Steigerung das Subjektive zu völliger Selbstvergessenheit hinschwindet. Auch im deutschen Mittelalter wälzten sich unter der gleichen dionysischen Gewalt immer wachsende Schaaren, singend und tanzend, von Ort zu Ort (…). Es gibt Menschen, die, aus Mangel an Erfahrung oder aus Stumpfsinn, sich von solchen Erscheinungen wie von “Volkskrankheiten”, spöttisch oder bedauernd im Gefühl der eigenen Gesundheit abwenden: die Armen ahnen freilich nicht, wie leichenfarbig und gespenstisch eben diese ihre “Gesundheit” sich ausnimmt, wenn an ihnen das glühende Leben dionysischer Schwärmer vorüberbraust.

– Friedrich Nietzsche, Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik(2)

O uso da música com propósitos espirituais parece abranger todo o espectro de práticas místicas, incluindo orações, meditações, rituais xamânicos e outros centrados no uso de drogas específicas.

De fato, é possível que exista uma forte correlação entre “ser espiritualizado” e “gostar de música,” dada a facilidade com que ambos grupos de memes costumam nos afetar (a ineficiência de nosso sistema imuno-memético diante deles).

Curiosamente, este parece ser o argumento mais difícil de atacar. Você poderia dizer que “espiritualidade” (no sentido mais amplo de “experiências místicas”, não de “teísmo”) é ruim em si mesma, mas mesmo os mais materialistas parecem evitar essa posição. Dizer que, com frequência, o recurso à experiências místicas conduzirá à pseudociência ou superstições também é problemático, sendo possível citar um espectro mais ou menos “benigno” que vai de Michael Persinger (neuroteologia) ao Dalai Lama, passando por Sam Harris (meditação).

“Conclusões”

Várias atitudes em relação à música – e suas respectivas racionalizações – parecem indistinguíveis do mais puro “vício memético.” Somos explorados pela música, que forjou nossas mentes para alcançar vantagens reprodutivas. Esse memeplexo tem todas as características de um vício, consumindo o máximo de recursos possível mas garantindo a manutenção da funcionalidade mínima do hospedeiro. Somos continuamente encorajados a consumir mais música, buscar novidades, recomendar aos amigos, etc. Espalhar como fim em si mesmo. “Boa” música em geral é definida por sua popularidade (potencial memético ou de virar um “verme de ouvido”), não por benefícios (paupáveis) que eventualmente conferem aos indivíduos que a consomem. Afirmar “não ouvir música” é algo mais alienígena do que dizer-se ateu, com a diferença de que as chances de ser levado a sério são quase inexistentes. A resposta mais comum (à possibilidade hipotética, não à realidade da sua afirmação) seria algo como “minha vida seria tão vazia e sem significado sem música!”, ou “o que alguém assim teria de errado? uma depressão profunda?”, seguido de uma lista interminável de recomendações, porque “tem que existir algum tipo de música que você goste.” Isso é claramente muito mais hostil do que a reação típica ao ateísmo (lembrando ser comum que se considere o ateísmo moralmente mais condenável do que vários tipos de comportamento criminoso).

Isso simula de maneira muito próxima o comportamento de dependentes químicos. Se você não devota uma certa parcela mínima da sua vida à música, você deve “tentar com mais afinco.” Toda educação musical aspira encontrar formas de aumentar seu impacto. A maior parte do que é produzido não contém qualquer mensagem relevante, não ensina nada, não dá nada além de prazer. Ela burla o propósito da existência do sistema de recompensa cerebral, optando por estimulá-lo diretamente, sem precisar dar nada palpável em troca. É um parasita.

Mas e agora? Isso tem mesmo uma mínima chance de fazer um mínimo de sentido? Não pode ser! Imaginem: a nona sinfonia de Dvořák é um parasita? Old school Norwegian black metal é realmente satânico? Não! E mesmo que fosse, alguém conseguiria mesmo viver sem música? Eu conseguiria? Digo, uma vida funcional, produtiva. Partindo de 20, 30 anos de audição musical quase diária. Não morreríamos de depressão, tédio, nostalgia musical?

Bem, ouçamos os que se desconverteram. De crenças religiosas, teísmo.

É claro que nem todo comportamento parasítico é completamente prejudicial ou não tem qualquer potencial de alinhamento com os interesses do hospedeiro. Para começar, eles compartilham algum nível de interesse na manutenção do bem estar do hospedeiro. O importante é reconhecer que a prioridade do vírus é sua replicação. É responsabilidade do hospedeiro, nesse caso, manter a simbiose da relação.

Use responsavelmente. Não se exceda. Faça pausas. Não se repita demais. Diversifique seus gostos musicais. Evite o mainstream. Não faça várias coisas ao mesmo tempo (multitasking) com música. Sempre precisar de uma música de fundo pra fazer as coisas (definir um humor) é um indício sério de que você já perdeu o controle.

Novos hábitos preencherão o vazio, hábitos talvez melhores.


(1) Na verdade, eu até poderia fornecer ao menos um argumento simples em favor dos benefícios de uma vida sem música: economia de recursos. Você provavelmente estaria melhor se substituísse o tempo que gasta buscando, ouvindo, catalogando/organizando, pensando em e discutindo música com alguma atividade realmente benéfica. No entanto, eu defenderia a racionalidade da minha posição mesmo em um mundo hipotético em que aquelas atividades não consumissem recursos.

(2) Ou por meio da bebida narcotizante, que por todos os homens e povos primitivos é cantada em hinos, ou por ocasião do imenso aproximar da primavera, que atravessa toda a natureza cheia de alegria, acordam aquelas emoções dionisíacas, em cujo aumento desaparece o subjetivo sob completo esquecimento de si mesmo. Na Idade Média alemã também se dobravam, sob idêntica força dionisíaca, hordas sempre crescentes, cantando e dançando de lugar para lugar. (…) Existem homens que, por falta de experiência ou por estupidez, se afastam de tais aparecimentos como de “doenças populares”, ironizando-as ou as lamentando, no sentir da própria saúde: estes pobres não suspeitam de como se torna cadavérica e fantasmagórica esta sua saúde, quando por eles passa, tormentosa a vida ardente de entusiastas dionisíacos.

(Nietzsche: O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música.)

Quantificando diagnósticos de autismo

Muito se fala em excesso de diagnósticos de autismo – ou ao menos de uma grande frequência de diagnósticos errados, sejam falsos positivos ou falsos negativos -, mas até outro dia eu ainda não tinha visto uma tentativa de quantificar a possível gravidade desse problema. Motivado por isso, podemos brincar descompromissadamente com alguns números e quem sabe ainda extrair uma ou outra idéia para discussão.

Chamemos de A a taxa de prevalência real de autistas na população (pessoas que “objetivamente” atendem aos critérios diagnósticos vigentes, podendo ou não ser avaliados, podendo ou não ser identificados como autistas); esse é o número que é estimado pelo CDC americano, por exemplo, com base na observação de casos diagnosticados reais. Desses, digamos que uma proporção Ba ≤ A busca avaliação diagnóstica profissional, dos quais Da ≤ Ba são diagnosticados corretamente (com algum transtorno do espectro autista).

É natural que algumas pessoas não-autistas, por diversas razões, considerem ou sejam consideradas para avaliação de autismo (1). A “prevalência” de não-autistas é (1-A). Desses, digamos que Bna ≤ (1-A) busquem avaliação profissional e que desses Dna ≤ Bna tenham o diagnóstico de autismo corretamente rejeitado.

Assim, a razão R de não-autistas incorretamente diagnosticados com autismo por autistas reais seria dada por:

R = (Bna (1 – Dna) (1 – A))/A .

Pra ficar realmente divertido, precisamos arbitrar valores para os parâmetros definidos acima. Como a maioria dessas informações não estão disponíveis – ou mesmo sequer são observáveis -, só podemos chutar valores que não pareçam loucos demais.

A estimativa mais recente do CDC para a prevalência de autismo é de 1/68, ou cerca de 1,5% (1/42 para homens e 1/189 para mulheres). Vou ser conservador e/ou preguiçoso e atribuir à A (prevalência real) exatamente o valor dessa estimativa.

Digamos que 1 em cada 100 pessoas não-autistas busca avaliação para um diagnóstico de autismo e que profissionais têm uma taxa de acerto de “apenas” 85% (ou seja, 15% de não-autistas que buscam avaliação saem com um diagnóstico de autismo).

Do  mesmo modo, consideremos que 70% dos autistas reais buscam avaliação profissional e que apenas 85% deles conseguem um diagnóstico (mesma taxa de acerto para descartar autismo em não-autistas).

Para esses valores, teríamos aproximadamente um não-autista diagnosticado incorretamente para cada 10 autistas reais. Ou um não-autista incorretamente diagnosticado para cada 6 autistas reais diagnosticados.

Esses são números bastante assustadores, mas é preciso reconhecer a grande dependência dos valores que chutei. Por exemplo, se eu aumentar Dna para 95% (só 5% de não-autistas recebem diagnóstico profissional de autismo), passaríamos a ter aproximadamente um não-autista diagnosticado para cada 30 autistas reais.

Por outro lado, o acesso à serviços de avaliação profissional ainda é muito restrito. A disponibilidade de profissionais capacitados é pequena (especialmente na rede pública) e o custo na rede privada é alto. São muitas as evidências de que mulheres autistas e pessoas em minorias étnicas/raciais são sub-diagnosticadas. Assim, é comum o recurso ao “auto-diagnóstico”, seja com o objetivo de tentar inferir respostas para as dificuldades percebidas, seja para subsidiar uma decisão posterior de buscar avaliação profissional (incorrendo nos altos custos envolvidos). A inclusão de variáveis associadas ao auto-diagnóstico faz o problema parecer ainda mais grave.

Digamos que 2 em cada 100 não-autistas buscam acesso a esses questionários online para aplicar a si mesmos e que 30% desses têm resultados condizentes com um (auto-)diagnóstico de autismo (o dobro da taxa de erro dos profissionais). Também considere que 20% dos autistas reais buscam auto-diagnóstico e que apenas 70% desses alcançam resultados condizentes com um diagnóstico.

Para esses valores, um indivíduo que “se apresente” como autista (seja com diagnóstico profissional ou auto-diagnóstico) tem aproximadamente apenas 50% de chances de ser um autista real; temos quase um não-autista (pro ou auto) diagnosticado para cada autista (pro ou auto) diagnosticado!

Mas note que os números escolhidos não chegam a implicar na existência de uma “epidemia” de diagnósticos indevidos: para cada 1000 não-autistas, aproximadamente 1,5 receberiam diagnósticos profissionais e 9 se auto-diagnosticariam com autismo. A idéia é apenas mostrar que, dependendo de algumas condições, o número de diagnósticos indevidos pode representar uma parcela significativa do número total de diagnósticos – ou mesmo do número de autistas reais -, em especial se levarmos em consideração o auto-diagnóstico.

(1) São diversas as motivações possíveis: pais em dificuldades procurando uma explicação para os problemas comportamentais dos filhos, assim como estratégias de intervenção e acesso a serviços e benefícios; adultos procurando explicações para suas dificuldades e eventual acesso a serviços e benefícios (uma realidade em países mais desenvolvidos); etc.

 

On why I hate the news

The New York Times subsists on, and sells, a toxic brew of incompetence, arrogance,
and bad faith. Incompetence: this is a near-universal of journalism, seems like the nature of the thing. To understand, try this exercise. Keep your eyes open for newspaper and magazine articles on things you have direct personal knowledge of – things you actually saw or skills you’ve developed. Stuff you’ve actually lived. When you find an article like that, ask yourself how correct it is. Don’t even worry about the conclusions, just the basic facts: names, numbers, claims. I’ve rarely seen better than 60% accuracy (To estimate journalistic incompetence, think of errors you personally know about and extrapolate). The simple factual grounding of nearly every article I had independent knowledge about was appallingly inept. So here’s the
next question: Why should you believe the same sources when they speak of anything else? Answer: you shouldn’t. That’s not what they’re for. So that’s the first aspect: ignorance. I don’t claim the NYT is any worse than any other source in that respect, mind you. But it’s not much of a service to drink the cleanest, finest sewage in the
land, either.

Second part: arrogance. The NYT isn’t just another news source, it’s the Newspaper of Record. I generally avoid the term ‘pretentious’ but it fits here. The weird grammatical affectations, the overt contempt for anyone and anything outside the Manhattan cultural bubble – when an Oscar Wilde struts around in funny clothes mocking people, it’s charming! When a third-rate nonentity does the same, it’s revolting. The NYT is a third-rate nonentity that thinks it’s Oscar Wilde. And
that’s arrogance, the second factor.

Part 3: bad faith in the NYT. An example is Krugman cashing out his technical expertise in the coin of demagoguery. It’s not that he’s doing it at all – such exchanges are a proud tradition – but that he’s so damned sloppy about it.

Must a newspaper be “objective”? No, of course not, that’s impossible, bla bla bla, and yet… Back to the ignorance thing. Journalists are generalists; they’re always approaching stories as newcomers. They don’t know their subjects. Should that be the case? I don’t know, but it certainly is the case, overwhelmingly, and it’s plausible
that it must be. But if a journalist, or a journalistic organization, is never terribly clear on the facts, they do know their own worldview, if passively. I think this points toward the problem that the objectivity argument misses. Facts are murky, one’s
own values are clear. If you mistake clarity of values for clarity of fact, that’s a worse corruption than mere subjectivity.

Procreation and Suicide

On the pressing issue of suicide among the youth, I have already seen too many posts and comments all over the web to the effect that once a person knows/accept that history/others’ experiences point to the fact that parents almost never “move on” with their lives following a kid’s suicide he should not consider suicide anymore – that independent of his actual conditions/misery, his behavior will always be considered purely selfish, self-centered  and morally wrong.

I’m a parent myself and I know for sure that “moving on” would be an extremely difficult thing to do; quite possibly, I wouldn’t be able to do it. (Damnit, I cringe at the mere thought of something bad (accidental) happening to my kids.) I don’t know much about other people’s parental relationships, but I guess my gut reactions to this are not that far away from what would be considered typical among most parents. (In fact, the near-certainty one has that one would end up feeling this way could be considered an acceptable argument against having kids in the first place.)

The problem here lies in the fact that that kind of parental attachment, despite having all sorts of underlying evolutionary, biological reasons, may also impose an almost unbearable weight to a human’s existence. Keep in mind that in order to see that kind of dynamics in place we don’t even need to focus on anything so extreme as suicide itself: consider a huge list of “life options” or “life styles” which are often viewed as possibly detrimental to one’s relationship to one’s parents. Likewise, there are a lot of people who would consider “likely consequences to your parents psychological wellbeing” as a major – if not the main – criterium to be applied to anyone’s big life decisions.

As an only child, you shouldn’t consider moving to Japan.

(i.e. you should proactively constrain the universe of possible career paths by default)

You should never regularly engage in any ‘risky’ activity (by any measure of risk), be it practicing an ‘extreme’ sport or even choosing certain professions, despite of you liking them that much, mainly because of the likely psychological effects that an eventual, accidental death or injury would cause to your parents.

 

Despite of your particular life circumstances, killing yourself would be the most egoistic act one could ever imagine. Especially so if you have loving, caring parents. They will never recover themselves. Given this clear realization, no suffering/hopelessness would ever be relevant enough.

 

The above situations seem to be misleading for at least two simple reasons:

  • They assume that there’s no suffering intense enough to rival the suffering resulting from the realization that your act would possibly decisively reduce the chances of a loved person ending up experiencing significant pleasure in the future.
  • They seem to assume that “giving life” is never anything short of a wonderful gift.

 

Giving up such a gift (actually, destroying it forever, as one couldn’t give one’s life to another person instead) sounds like a direct affront to those who generously brought it to you in the first place. It does seem to be the case for the majority of people, but the amount of suffering in the world isn’t negligible by any measure. There’s a huge diversity of ways (and constraints to the ways) a person can experience and react to what is happening around him. Anyway, it seems difficult to most people to unambiguously see exceptions to the “rule” that states that life is the perfect, ultimate gift.

 

Given enough thought and effective help, it’s quite possible that most lives would be considered “worth living” (from the person’s own perspective), but the most useful resources are scarce (empathy being one of the scarcest ones). We should refrain from the temptation of applying our own perspectives and mindframes to other persons. Full or even partial recovery may be really costly sometimes and it’s not up to ourselves to say what level of quality of life a person should tolerate/live with.

 

From that point of view, giving birth and raising a child, albeit being a wonderful experience and potentially a “gift” (in the sense described above), for both parent and child, may also give rise to a relationship having many aspects that could be considered unhealthy or even unfair, especially from the child’s perspective. In that respect, I would rather see my kid ending his suffering in some way to involuntarily making him (by means of my silence and general lack of emotional support) stick to his misery without end. As a father, I consider that his current and prospective concrete suffering takes complete precedence over my likely-but-still-uncertain suffering in the future.